Sociedade

Hanna e Vyacheslav, os primeiros refugiados a chegar ao Centro de Acolhimento de Leiria

7 mar 2022 14:14

A ucraniana não conseguiu impedir as lágrimas de caírem assim que chegou ao piso de camarotes do Estádio de Leiria, onde estão instaladas 54 camas

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Ao chegarem ao piso dos camarotes do Estádio Municipal de Leiria, Hanna, 45 anos, e Vyacheslav, 16 anos, têm o olhar um pouco perdido. Falam apenas ucraniano e russo. Nas mãos trazem uma mochila e sacos. Tudo o que têm. As lágrimas enchem os olhos de Hanna, que soube recentemente que também está infectada com Covid-19.

Agradece insistentemente a todos os que a ajudaram. São os primeiros refugiados da Ucrânia a chegarem ao Centro de Acolhimento Temporário de Leiria, que disponibiliza, para já, 54 camas nos camarotes do Estádio Municipal de Leiria.

Mãe e filho viviam em Boyarka, a cerca de 20 quilómetros de Kiev. No primeiro dia da invasão da Rússia, pelas cinco horas da madrugada registaram-se duas explosões. Os alarmes de carros dispararam. “Foi aterrador", conta Hanna, através das palavras de Nataliya, de origem russa, que tem estado envolvida na ajuda aos ucranianos e serve de intérprete.

Na sua cidade houve gasolineiras e armazéns de cosméticos destruídos. “O ar e a água ficaram contaminados”, adiantou, ao referir que a sua cidade fica no meio de várias que têm sido atacadas, perto do aeroporto militar Vasylkov.

O filho, por ter problemas cognitivos não ficou a combater, insistiu com a mãe, no dia 26, que tinham de fugir. Hanna estava a fazer o almoço e largou tudo. Pegaram numa mala de viagem e numa mochila com os principais bens.

Chegaram a Kiev à boleia de um comboio, que já estava em andamento, quando os dois acenaram insistentemente para o maquinista parar. Já na capital ucraniana, havia um comboio para levar refugiados para a Polónia, mas as três carruagens eram pequenas para tantos. “Começaram a disparar e não queriam que os ucranianos entrassem. Insisti e disseram-me, por fim, que teria de escolher entre entrar o meu filho ou a nossa mala”, relatou.

Hanna não pensou um segundo. Ela e o filho fizeram a viagem de cerca de 17 horas no chão do comboio, à porta da casa de banho.  “Num espaço para quatro pessoas estavam 17”, recordou.

Foi na Polónia que um grupo de voluntários lhe disse que poderiam vir para Portugal. Voluntários de Porto de Mós pagaram o bilhete de avião dela e do filho. "Não conheço as pessoas e quando não tiver Covid quero agradecer-lhes. No meio disto tudo, tivemos muita sorte. Custa acreditar que alguém, sem nos conhecer, nos ajude a vir para Portugal, sem ter de pagar um cêntimo”, disse Hanna, ainda a refazer-se de todas as emoções que tem vivido.

O pai, de 74 anos, e uma amiga com dois filhos ficaram na Polónia. “Disseram-nos que os vão colocar na lista para vir nos autocarros que vêm para Portugal”, acrescentou.

Na Ucrânia ficou uma casa recentemente comprada e que estava a ser alvo de obras. “É indiferente com quem estás ou onde estás. O mais importante é salvar a minha vida e a do meu filho”, frisou.

Ainda sem pensar muito no futuro, Hanna pretende ter o seu espaço, trabalhar e o filho poder continuar o curso de cozinha.

Por ter Covid-19, a Câmara de Leiria rapidamente montou um quarto para que pudesse cumprir os sete dias de isolamento, ficando com uma casa de banho só para si. Na porta ao lado fica a viver o filho.

A gratidão por tudo é muita e assim que lhe disseram que o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, estava a caminho, pediu: “Quero tirar uma fotografia com ele.” E assim o fez.

À espera de mais 18 refugiados

Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria, considera que este é um “trabalho que permite a integração junto da comunidade ucraniana em Leiria e dos leirienses”, pelo que está a ser desenvolvido de forma multidisciplinar “com os funcionários do município, com o associativismo, com os profissionais ligados à área da saúde e da psicologia e técnicos da educação”.

“Numa fase posterior, iremos encontrar um sistema de apadrinhamento, quer com empresas quer com particulares, para que estas pessoas possam ter uma perspectiva de vida que implique o regresso ao mundo do trabalho e a possibilidade de poderem voltar aos estudos e seguirem as suas vidas aqui em Leiria” ou mais tarde regressarem à Ucrânia.

Gonçalo Lopes anunciou ainda que amanhã, terça-feira, devem chegar mais 18 refugiados, que vêm integrados na caravana que levou bens para a fronteira da Hungria e que teve o envolvimento do Município. “Este é um processo muito exigente do ponto de vista de proximidade. Não pode ser tratado como é o envio de bens para a Ucrânia. Não estamos a falar de uma palete de mercadoria. Estamos a falar de pessoas, cada uma com as suas necessidades e características”, sublinhou.