Sociedade

Exposições, residências e a cultura democratizada: o Plano Nacional das Artes nas escolas

13 jul 2026 18:24

Já está em vigor em mais de 500 escolas por todo o país, e na nossa região já são vários os exemplos de culturalização do ambiente escolar, abrangendo 17 estabelecimentos de ensino diferentes

Em 2019 foi introduzido pelo Ministério da Cultura e da Educação o Plano Nacional das Artes (PNA), um projecto que desafia as escolas a aproximarem os seus alunos ao mundo das artes, numa tentativa de aumentar “a fruição e criação cultural”, explica o manifesto do PNA.

Nascido com o objectivo de “tornar as artes mais acessíveis aos cidadãos, em particular às crianças e aos jovens”, actualmente, o PNA está presente em mais de 500 escolas espalhadas por 228 municípios e na nossa região já foi posto em prática em 17 escolas, 4 destas na Marinha Grande.

Para auxiliar na realização destes projectos o PNA organiza várias formações e encontros nacionais e virtuais e disponibiliza para acompanhamento das escolas um coordenador intermunicipal.

A nível local, o PNA desenvolve “uma forte acção, em termos de rede congregadora, entre todas as escolas/ agrupamentos que aderem ao PNA”, acredita Helena Brites, directora da Escola Profissional de Leiria, um dos estabelecimentos da nossa região que aderiu a este projecto. Com esta adesão é realizado em “cada estabelecimento de ensino um Projecto Cultural de Escola (PCE) específico e definido de acordo com as prioridades/necessidades próprias de cada estabelecimento, a partir e sempre das necessidades e perfil dos alunos”, explica Helena Brites ao JORNAL DE LEIRIA.

A EPL aderiu ao PNA no ano lectivo 2024/2025 e já renovou esta adesão para o ano lectivo 2025/2026, um passo muito importante no percurso dos alunos que passam e irão passar nesta escola acredita a directora, que encara este projecto como algo “essencial para o desenvolvimento de competências sociais, emocionais, cognitivas e humanas”, junto dos alunos.

Formação no património cultural

Neste momento estão envolvidos no projecto alunos dos 15 aos 18 anos, e ao todo já participaram 80 estudantes, refere Helena Brites que acredita que “não basta formar jovens academicamente, em termos de conhecimentos” mas que também é necessário “educar a sensibilidade estética, desenvolver e promover a criatividade e proporcionar momentos de fruição artística e cultural é essencial” para um “desenvolvimento harmonioso do perfil do aluno”.

No ano lectivo passado a EPL iniciou e completou o projeto Inimaginável, que culminou numa exposição de “trabalhos artísticos da comunidade educativa” e para este ano o PNA segue a bom ritmo e com ofertas diversas para os estudantes da EPL.

Outro dos grandes objectivos da EPL foi a formação dos alunos no que diz respeito ao património cultural da nossa região, já que, segundo Helena Brites, “tomar consciência de quem somos passa também por conhecer a identidade do meio local no qual estamos inseridos”. Para isto e de modo a acrescentar aos alunos “experiências que vão transformando a visão, a interpretação, coleccionando bagagem, e que acrescentam mais ferramentas para interpretar e interagir com o mundo que nos rodeia”, neste ano lectivo foram realizadas várias visitas a diversos espaços culturais na região.

Apesar destas visitas, a directora da EPL destaca outra actividade encetada pelo projecto: a criação e a pintura de um mural, no interior do edifício escolar onde estão a ser implementados “dois centros tecnológicos especializados, um na vertente industrial e outro na vertente da informática” que irão estar abertos a partir do próximo ano lectivo. No centro do conceito deste mural, estão intrínsecas “propostas dos alunos que passam sobretudo por elementos da natureza, presença da figura humana, linguagem tecnológica” e contando ainda com uma alusão à tempestade Kristin, que afectou a integridade da escola profissional.

Além disto a execução do mural nas paredes da EPL contou ainda com o apoio de 5 artistas que visitaram a escola e “que se envolveram no projecto, desde a fase do planeamento ao processo de construção”, processo esse que se iniciará já a partir da próxima semana, com a tarefa final de pintar o mural.

Para o futuro do projecto, Helena Brites destaca a necessidade de considerar, ainda mais, a forte presença multicultural na escola, já que cerca de um quarto dos alunos são provenientes de nacionalidades estrangeiras, de modo a “abarcar um leque mais amplo de intervenientes, nomeadamente as famílias”. Outro objectivo futuro é a inclusão de várias linguagens artísticas, já que até agora foram exploradas a música, o teatro, a dança e as artes plásticas, mas a directora expressa o interesse da escola em incluir outras como “a literatura, o cinema, a fotografia entre outras”, assim como realizar “residências artísticas, que resultarão em momentos performativos e de partilha com a comunidade”.

Vários projectos artísticos

Outro exemplo da implementação do PNA na nossa região é o Agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente (AEMGP), que tendo entrado para o PNA no ano lectivo 2022/2023 com uma intenção semelhante à do exemplo anterior, ou seja, com a vontade de “integrar as artes de forma mais transversal no currículo, ampliar parcerias culturais e fortalecer a ligação entre escola, comunidade e território”, colocou em prática o Plano Cultural da Escola (PCE) Olhares Diferentes, Caminhos Comuns que integra em si “diversos projectos artísticos, culturais e interdisciplinares centrados na inclusão, diversidade e articulação entre escola e comunidade”, explica o professor José Nobre, coordenador do PNA e do PCE no agrupamento.

Os projectos do PCE englobam quase toda a comunidade educativa do agrupamento, explica José Nobre, ao referir a existência de projectos desde o ensino pré-escolar até ao ensino secundário.

“Algumas actividades são dirigidas a públicos específicos, enquanto outras têm um carácter mais abrangente e comunitário”, esclarece o coordenador responsável pelos projetos, que sendo realizados com alunos dos 3 aos 18 anos, pretendem garantir “uma participação alargada e inclusiva, envolvendo diferentes ciclos de ensino e promovendo experiências culturais diversificadas ao longo do percurso escolar”.

José Nobre salienta também a “lógica muito mais ampla do que um conjunto isolado de atividades” do PNA no agrupamento, que ao invés disso, trata-se de uma “estratégia cultural integrada que articula currículo, comunidade, património, artes e media”, pensada para transformar as escolas num “ecossistema cultural permanente”.

Integrados neste PCE o agrupamento já desenvolveu variadíssimos projectos, nas áreas de artes visuais e fotografi a, teatro e performance, música e dança, multimédia e media escolares, literatura e inclusão, cidadania e identidade, recebendo também vários artistas residentes nas escolas. Ao todo foram realizadas mais de 20 actividades distintas que vão desde festivais de vídeo, a jornais escolares ou ainda a exposições de artes visuais e mupis, sendo estes apenas alguns exemplos, da “coerência e dimensão pedagógica” do plano do agrupamento apoiado pelo PNA que “permitiu dar maior estrutura” a projectos já existentes.

Apesar da integração no PNA ter permitido “estruturar e consolidar esse percurso, reforçando a articulação entre projectos, ampliando parcerias com artistas e instituições culturais”, José Nobre destaca que o PNA “não representou um ponto de partida, mas antes um factor de valorização, organização e aprofundamento pedagógico”.

Outra componente do Olhares Diferentes, Caminhos Comuns são as parcerias estabelecidas entre a escola e vários actores culturais da região da Marinha Grande, nomeadamente, com o Museu Joaquim Correia, com o Núcleo de Arte Contemporânea e com a Câmara Municipal da Marinha Grande e com o Teatro Stephens. Esta última parceria está também integrada no programa Artista no Território levado a cabo pelo município e com o objectivo de “fazer permanecer artistas convidados, para que possam ser influenciados pelo território da Marinha Grande, mas também influenciar e criar relações com agentes culturais, sociais, educativos, criativos, corporativos ou outros”, como explica a câmara no seu programa cultural.

Envolver alunos na criação de um filme

José Nobre destaca ainda as “várias residências artísticas e projetos pedagógicos, entre eles os trabalhos de André Sier na arte digital e interactiva, Guilherme Simões na exploração sonora, o Projeto Curupira na educação ambiental e sensorial, Carla Cabanas na fotografia e arquivo, e o projeto cinematográfico Crónica Pitoresca – 7/1, que envolveu os alunos em todas as etapas da criação de um filme”.

Neste ano lectivo, o agrupamento verificou uma redução do número de actividades, devido aos impactos da tempestade kristin, mas destaca ainda assim a “parceria com o Museu Nacional Resistência e Liberdade, no âmbito do projecto Guardiões e Guardiãs das Memórias”, onde os alunos do “12.º ano de Artes Visuais desenvolveram uma pintura colectiva inspirada na Revolta Operária da Marinha Grande de 18 de Janeiro de 1934”.

Os resultados deste projecto estiveram em exposição no museu até o dia 30 de Abril e o projecto contou ainda com um momento multidisciplinar, que uniu teatro, música, dança e multimédia para realizar o espectáculo 18 Janeiro 1934, que contou com o apoio do Sport Operário Marinhense.

Para o futuro, a coordenação do projecto considera fulcral assumir o projecto enquanto uma iniciativa “em constante evolução, disponível para integrar novas ideias, actividades e parcerias ao longo dos próximos anos” de modo a continuar o rumo de “consolidar uma identidade cultural própria, tornando a cultura uma dimensão transversal da vida escolar e não apenas um conjunto de actividades pontuais”.

“Nesse sentido, o futuro do projecto passa por transformar a escola num espaço cada vez mais criativo, colaborativo, inclusivo e culturalmente activo”, conclui José Nobre.

 

O PNA no resto do país e no mundo
574 escolas fazem já parte deste projecto
 
Desde a sua criação em 2019, o PNA já angariou 574 escolas distribuídas por mais de 200 municípios. Na nossa região já fazem parte as escolas da Caranguejeira, Colmeias, Correia Mateus, D. Dinis, Domingos Sequeira, Marrazes, Rainha Sta. Isabel Henrique, Afonso Lopes Vieira, Rodrigues Lobo, prisão escola, Escola Monsenhor José Galamba de Oliveira, Escola profissional de Leiria e Henrique Sommer, na Maceira. Na Marinha Grande estão ainda inseridas as escolas do agrupamento poente, assim como a Escola Profissional Artística da Marinha Grande e o Sport Operário Marinhense. Além de actuar em território nacional, o PNA expande-se a outros continentes como África, onde já desenvolveu parcerias com escolas em Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor, afirmando-se também como uma peça-chave na integração das artes e da cultura no sistema educativo português. Duas das grandes forças do PNA são a realização dos planos culturais escolares, que já envolvem mais de 500 agrupamentos escolares, e o Programa Artista Residente que já realizou mais de 300 residências artísticas em ambiente escolar. Além disto o PNA colabora ainda com outros planos já implementados no passado pelo governo, nomeadamente com Programa Rede de Bibliotecas Escolares, com o Plano Nacional de Cinema, com o Programa de Educação Estética e Artística, com o Plano Nacional de Leitura e com a Rede Portuguesa de Museus, explica o relatório publicado no site do PNA.