Economia

Era uma vez na América: as primeiras viagens dos empresários da Marinha Grande

18 out 2026 16:56

Foi um holandês que abriu caminho ao vai-e-vem em que se tornou a vida de muitos empresários dos moldes, a partir da Marinha Grande. Uma história que começa na empresa Aníbal Abrantes e se estendeu a todo o universo da indústria de moldes

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Reunião de trabalho na empresa Aníbal H. Abrantes
Foto cedida por Henrique Neto
Paula Sofia Luz

A história da internacionalização da indústria de moldes da Marinha Grande começou, afinal, por causa da II Guerra Mundial. Ou melhor, por causa de um piloto holandês que aqui veio parar. Chamava-se Tony Jongenelen. “Foi ele que inventou a exportação dos moldes da empresa do senhor Aníbal Abrantes, antes mesmo do próprio ter pensado nisso”, conta ao JORNAL DE LEIRIA o empresário Henrique Neto, que depois de Tony foi o primeiro marinhense a embarcar rumo à exportação, substituindo o então colega na empresa. Mas vamos por partes.

O piloto holandês fora abatido no início da guerra de 1939, “e no hospital foi ganho, com alguns outros, como espião ao serviço do exército americano, para o que formaram uma orquestra, tendo percorrido a Alemanha a tocar em bares e festas e a enviar informações sobre os movimentos das tropas alemãs.

Depois da guerra, com a excepção do Tony - que se empregou na Suíça como director comercial - todos os outros emigraram para os Estados Unidos e cada um deles criou a sua empresa de injecção de materiais plásticos para produzir brinquedos musicais: bombos, cornetas, banjos, órgãos, etc”, recorda Henrique Neto, num artigo publicado em Julho passado no Jornal da Marinha Grande.

“A dificuldade de conseguir os moldes necessários, dada a natureza artesanal da produção, era conhecida do Tony Jongenelen através dos seus amigos, informação útil quando pela primeira vez veio a Portugal para fechar um negócio de venda de palhetas musicais para uma televisão, a produzir na empresa Hércules de Espinho, onde conheceu o senhor Aníbal Abrantes, que lá estava a testar o molde da televisão”, acrescenta.

Dessa feliz coincidência resultou o que ainda hoje Henrique Neto apelida de “fecho de um contrato leonino com a empresa AHA”. Tony Jongenelen viveu em Portugal em Miramar com a mulher e um filho, durante muitos anos, e por cá “fez uma pequena fortuna. Morreu nas Canárias depois de se reformar. O filho viveu, casou e morreu no Porto”, recorda o empresário, que conheceu Tony aos vinte e poucos anos, quando trabalhava como desenhador na empresa de Aníbal Abrantes, para onde entrara aos 16 como torneiro.

Aí começava - para Portugal e para a Marinha Grande - o capítulo da indústria de exportação de moldes, “principal razão do sucesso deste sector na Marinha Grande e mais tarde em Oliveira de Azeméis. Ao Tony e ao senhor Aníbal o devemos”, considera ainda hoje Henrique Neto, que aos 90 anos continua a referir-se “ao senhor Aníbal Abrantes” com toda a deferência.

“Devo-lhes muito, a ambos”, afirma o empresário, que afinal começou a viajar precisamente para substituir o holandês, quando este adoeceu com um problema cardíaco. A primeira viagem de Henrique Neto aconteceu já no final dos anos 50, quando pisou pela primeira vez solo americano. Levava com ele a grande vantagem de falar inglês (uma raridade na altura), graças às aulas nocturnas no Sport Operário Marinhense. Nunca mais se esqueceu do espanto que se abriu diante dos seus olhos, quando aterrou em Nova Iorque. Não se recorda dos detalhes da reunião, tão só daquela cidade tão diferente da capital portuguesa e de tudo aquilo que já conhecia.

Com o tempo, o holandês Tony haveria de voltar a viajar, mas nessa altura passaram a fazê-lo em duo. “Claro que, com o Tony, as viagens eram diferentes. Ele levava-me a sítios belíssimos, introduziu-me em círculos, culturais até, que me fascinavam. Estou-me a lembrar do Lincoln Center, que é um centro cultural de Nova Iorque, onde eu depois passei a ir sempre à noite, de cada vez que lá voltava”.

Nesses anos dourados o desenhador Henrique ia ganhando competências comerciais, e alargando horizontes. “Era lá que havia os grandes concertos, que fui pela primeira vez à ópera”, recorda. Por outro lado, ia estreitando relações no campo dos negócios. Foi assim também que fez alguns amigos pelo mundo, como foi o caso de Pietro Correlli, de ascendência italiana: “Eu era um miúdo, ele era outro miúdo. E eu vi-me um dia aflito com os orçamentos e fui saber os preços americanos. Foi ele que me ajudou. Era muito astuto, ele. Mais tarde acabou por ficar rico, à conta de uma empresa na Flórida - foi a primeira empresa no mundo a fazer garfos e colheres em plástico para as companhias aéreas”.

A amizade foi eterna enquanto durou a vida dos dois. Correlli viria a morrer, de cancro, há alguns anos. “Quando percebeu que ia morrer, veio a Portugal despedir-se dos amigos. Durante muitos anos foi em Portugal que a empresa dele comprava os moldes”.

Amigos, amigos, negócios à parte. O americano filho de italianos dizia sempre ao amigo da Marinha Grande “a ti não compro nenhum” Porquê? “Sabes de mais para mim, dizia--me ele” (risos).

Um carro em Bruxelas para correr a Europa

Depois de descobrir a América - e todos os encantos, a reboque dos negócios - Henrique Neto correu o mundo. No final dos anos 80, com a entrada na União Europeia, o mercado americano “teve ali um período menos bom, e eu mudei-me um bocado para a Europa”, recorda Henrique Neto.

Comprou um carro que deixava em Bruxelas, e nesse tempo voava apenas até à capital da Bélgica, e depois “pegava no carro e ia para Inglaterra, para a Suécia, para a França, ou para a Alemanha. Corria tudo de automóvel”, conta, ele que sempre adorou conduzir. Ainda hoje conduz. Era o tempo em que Portugal ainda mal se ligava entre si pelas vias terrestres, pois que a ligação completa de Lisboa ao Porto, pela A1, só chegaria no início dos anos 90. Está bem de ver que a viagem de carro entre a Marinha Grande e o Aeroporto da Portela demorava horas.

“E apanhei alguns sustos nessas viagens para Lisboa”, recorda o empresário. O maior de todos aconteceu logo a seguir ao 25 de Abril. Henrique Neto tinha chegado a Lisboa durante a noite. Deixara o carro no aeroporto, e na ânsia de voltar a casa, fez-se à estrada.

“Naquele tempo ia-se pela Ota. E, a seguir à Ota, talvez uns 20 ou 30 quilómetros depois, havia uma daquelas casas em que os camionistas paravam para jantar. E eu parei ali. Deu-me o sono, e decidi encostar, talvez uns 200 metros antes dos camiões. Eu levava um Mercedes, a diesel, que era da empresa, da Aníbal Abrantes. De repente, quando acordei, tinha uma G3 a bater-me ao vidro, apontada a mim”. Henrique Neto assustou-se, claro, mas teve uma reacção inusitada.

“Deu-me aquilo que eu acho que é um disparo, um disparo físico, em que uma pessoa não pensa, não entra a cabeça, posso-lhe garantir. Deitei-me e liguei o carro. E ao mesmo tempo arranco e atiro o carro para cima do tipo que estava a apontar-me a arma. Ele saltou, e eu arranquei a derrapar na estrada. E consegui safar-me. Mas eles continuavam aos tiros, ao longe. Eu entrei pelo meio dos camiões, em frente ao restaurante, e saí do carro a correr. Entrei no restaurante e vejo-os a tirar os pneus. Aquilo parecia uma cena de filme. O rapaz que estava ao balcão chamou o patrão, que por sinal tinha um mercedes igual, e ele próprio mudou os pneus para o meu, para eu poder voltar para casa. No dia seguinte mandei um chofer devolver-lhe os pneus. O senhor foi tão amável que nunca mais o esqueci”. 

No mundo de há 50 anos Portugal era subitamente conhecido. Aqui acontecera uma Revolução, catapultando o país para o noticiário mundial. Ora, é precisamente em 1975 que Henrique Neto funda a Iberolmoldes. “Não foi fácil lidar com o mercado lá fora, precisamente por isso”, sublinha, aludindo ao receio de instabilidade que podia amedrontar alguns negócios.

“No início a indústria de moldes tinha um mercado comprador. Havia falta de moldes no mundo. Até à guerra de 1945 era apenas um artesanato que existia para fazer umas peças nos relógios ou às vezes uns brinquedos de metal”, lembra o empresário, aludindo a empresas alemãs, suíças, americanas, na verdade “uma dúzia de pessoas, ou 20 pessoas no máximo, que lidavam com Portugal”.

Ainda hoje, Henrique Neto garante que “foi a empresa do senhor Aníbal Abrantes que criou no mundo inteiro a indústria de moldes. Como havia uma tal falta de moldes, em meia dúzia de anos ele cresceu, cresceu, cresceu até ter 350 pessoas ali a trabalhar. Era de longe a fábrica maior do mundo, naquela área”.

Uma tese sobre a internacionalização

Em 2002, Cristina Ferreira Crespo desenvolveu toda a sua tese de mestrado no ISEG, em Lisboa, à volta das “estratégias na internacionalização da indústria portuguesa de moldes”. Além de dedicar um capítulo inteiro ao grupo Iberomoldes (criado por Henrique Neto e Joaquim Menezes), a economista foca-se também no momento de viragem para a exportação, encetado pela empresa Aníbal H Abrantes.

“O sucesso desta primeira empresa de moldes para plástico em Portugal, foi-se verificando ao longo dos anos devido à grande visão caracterizadora do seu proprietário. Para angariar encomendas, Aníbal Abrantes deslocava-se frequentemente ao estrangeiro, de onde trazia amostras de peças de plástico que considerava poderem ser comercializadas em Portugal e apresentava-as às empresas de plástico propondo-lhes o fabrico do molde. O molde ia sendo fabricado e só no final era definido o seu preço, tendo em conta que a orçamentação nesta época era praticamente impossível”.

“As viagens, ao estrangeiro, efectuadas por Aníbal Abrantes, tinham também como objectivo a ida a feiras internacionais de máquinas e plásticos com o intuito de se actualizar tecnologicamente, fazendo da Aníbal H. Abrantes a pioneira da indústria”, pode ler-se na tese, consultada pelo JORNAL DE LEIRIA.

Também neste trabalho, Cristina Ferreira Crespo aponta o caso de Henrique Neto: “Na década de quarenta, as pessoas que tinham alguma formação vinham do curso industrial de vidros que funcionava na Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande. Após algumas solicitações começou a ser ministrado nesse curso a disciplina de Desenho de Máquinas. Foi aí que, em 1949, se efectuou o primeiro desenho de uma chumaceira que Henrique Neto levou para a escola e que serviu como modelo para ser desenhada durante vários anos. Henrique Neto, outra das grandes referências desta indústria, a par de Lenine Alexandre e outros, tiveram um papel determinante na evolução da indústria ao imporem a primazia do projecto e desenho de moldes sobre a fabricação, significando isto que se deviam executar as operações de acordo com o desenho. Este facto foi determinante e constitui, ainda hoje, um dos principais elementos para a uniformização da comunicação entre os diversos intervenientes no processo de produção, contribuindo decisivamente para a fabricação de moldes de qualidade”.

Também o início da exportação merece algum destaque: “A primeira exportação efectuada pela indústria de moldes resultou de um contacto efectuado pela Aníbal H Abrantes, em 1954, durante a experiência de um molde numa empresa em Espinho. O molde que estava a ser testado era para um caixa de música com a forma de televisão e havia sido fabricado na Aníbal H. Abrantes”.

Tal como contava no início Henrique Neto, no teste estava presente Tony Jongenelen, director de uma empresa Suíça de instrumentos musicais, “que ficou surpreendido por se fazerem moldes para brinquedos em Portugal”. “Foi na sequência deste encontro que Tony Jongenelen propôs à Aníbal H. Abrantes um contrato no qual estabeleciam que ele comercializava todos os moldes produzidos pela empresa para todo o mundo, principalmente para os Estados Unidos. Este acordo levou a que a Aníbal H. Abrantes em 1957, produzisse quase exclusivamente para exportação”, refere.

Cristina Ferreira Crespo destaca ainda, na sua tese, que o primeiro molde exportado se destinava à produção de uma boneca, em Inglaterra, então um dos países industrialmente mais evoluídos. “Foi assim que se começou a trilhar o caminho que conduziu a uma das principais características desta indústria - a sua vocação exportadora por excelência”.