Viver
Dinis Brito: o piano como bússola para seguir entre o jazz e a música erudita
O jovem da Marinha Grande, que já colaborou em palco com Fernando Tordo, passou pelas sessões Música à Varanda em São Pedro de Moel
A história que se conta em família regista a passagem de uma tempestade sobre a Marinha Grande e é a primeira memória de Dinis Brito sentado ao piano na sala da casa dos pais, enquanto lá fora o céu rugia.
Hoje, as notas pretas e brancas são como uma passadeira que lhe serve para atravessar os dias em segurança. “Não sei o que a música ainda me vai dar, mas sei que já me deu coisas como a oportunidade de poder criar a minha própria arte, e isso já é suficiente”, comenta o pianista de 19 anos, aluno da Escola Superior de Música de Lisboa (ESML) que no último fim-de-semana, no contexto das sessões Música à Varanda em São Pedro de Moel, apresentou um programa que mistura obras originais com peças de compositores como Brahms e Kapustin, numa ponte com quase 200 anos até à actualidade.
Natural da Marinha Grande, Dinis Brito toca piano desde os cinco anos de idade. Iniciou-se antes de aprender a ler e escrever. Conhece o diálogo entre a pauta e as teclas como a palma da mão e a entrada na ESML (onde estuda com a professora Inês Andrade) é possivelmente a derradeira etapa na preparação de uma futura carreira profissional.
Com Fernando Tordo no CCB
As apresentações ao vivo não são novidade, mas expressam o amadurecer do talento que começou a desenvolver no Sport Operário Marinhense, antes de frequentar o Conservatório de Palmela, a Escola de Música Nossa Senhora do Cabo em Lisboa e a Escola Profissional da Metropolitana, também em Lisboa.
Além do recital a solo realizado no Teatro Stephens, destaca, entre os espectáculos que mais o marcaram, o concerto no auditório da ESML em que interpretou uma peça para piano solista e ensemble de saxofones com o maestro convidado Yannis Miralis, e o concerto da Big Band da Metropolitana com Fernando Tordo como artista convidado, no pequeno auditório do CCB.
Um percurso em que a maior parte continua por revelar, no entanto, já iluminado pelas luzes do palco e com momentos para o álbum de recordações.
Lá em casa, a música existiu desde sempre. O pai alimenta a paixão através das cordas da guitarra, com diversas colaborações ao longo dos anos em diferentes agrupamentos, a mãe também estudou piano.
Rachmaninoff e Keith Jarrett
A esse ambiente de influência trazido da infância, Dinis Brito junta o interesse por músicos como Nikolai Kapustin, Sergei Rachmaninoff, Carl Vine e também Keith Jarrett.
Nos temas que compõe, juntam-se códigos das linguagens mais complexas, que mostram escolhas e certezas, mesmo para quem não arrisca identificar características como performer. “O público é que decide isso quando me ouve a tocar. Até porque algo que uma pessoa ache que seja o meu forte, outra pode não concordar”.
Na internet, e em especial no Instagram, é possível espreitar o que anda a compor, a explorar e a extrair do território da imaginação. Um vislumbre da tarefa a que se propõe nos próximos anos: criar originais que fixem no tempo aquele instante inaugural, em casa, ainda criança, à boleia de uma tempestade. “Na música, especialmente sendo pianista, há muito caminho por onde ir. Diria que apenas gostaria de continuar a fazer o que gosto de fazer (tocar e compor) seja no âmbito da música erudita ou do jazz”.