Sociedade

Quando a tempestade chega, a arquitectura é a primeira linha de defesa

2 jul 2026 18:00

“Prospectivar”: Quando a Kristin apagou as luzes da região, sem geradores, uma casa nos Milagres manteve-se iluminada. Presidente da Passivhaus Portugal deixa aviso para o futuro

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Pedro Oliveira queria uma “man cave” para si, mas acabou por criar um “geo-bunker” para a família
Fotografia: JSD
Jacinto Silva Duro

Pedro Oliveira, autodidacta que se dedica ao estudo de sistemas sustentáveis, e a família não viveram a tempestade Kristin como vítimas.

No seu “geo-bunker”, superaram-na como se fosse um teste prático para a casa idealizada para ser, nas suas palavras, “à prova de tudo… ou quase”, até de sismos, num País que faz pouco para se preparar para este tipo de evento.

A história de Pedro não é a de um engenheiro com recursos ilimitados, mas a de alguém que estudou, planeou e construiu com critério e que, quando chegou a hora da verdade, viu os seus princípios confirmados pela realidade.

Entre as opções de construção segura e o compromisso ambiental, a experiência deste técnico de reparação e manutenção de pequenos electrodomésticos, mais do que lições, ajuda-nos à reflexão e preparação para eventos extremos.

Esta não é uma solução que funcionará para todos, mas, como diz o técnico, pode servir de inspiração e de divulgação das técnicas disponíveis no mercado.

Construção passiva

A preparação para uma catástrofe, defende, além dos incontornáveis kit de emergência e reserva de garrafões de água, começa logo no desenho da casa que, neste caso, teve como filosofia a construção passiva e em aço leve.

“As pessoas precisam de pensar logo na arquitectura da casa, mas nós - eu e a minha mulher - fizemos a nossa escolha a partir do local, dos materiais, da orientação solar, do tipo de cobertura”, explica.

O lar de Pedro foi construído englobando princípios de arquitectura passiva (PassivHaus), onde a eficiência térmica é a prioridade absoluta e depois houve alguns melhoramentos que saíram da sua própria cabeça.

O isolamento externo em capoto foi combinado com isolamento interno e caixilharia de PVC com vidros térmicos e à prova de raios ultravioleta (UV), criando uma barreira que impede tanto a perda de calor no Inverno como o sobreaquecimento no Verão.

O resultado foi visível nos dias que se seguiram ao impacto da Kristin.

Mesmo sem recorrer a qualquer sistema de aquecimento a gás, ligado à rede eléctrica ou lareira, a temperatura interior manteve-se entre os 18 e os 20 graus enquanto o exterior era fustigado pelo frio, vento e pela chuva.

Em brincadeira, os amigos diziam-lhe que estava a construir uma man cave, cheia de gadgets, mas o resultado foi uma estrutura mais sólida, um verdadeiro “bunker”.

“Se tivermos uma boa estrutura na casa e isolamentos, acabamos por não ter grandes perdas de energia. O ideal seria nem perder nem ganhar”, afirma.

Quando a rede pública de electricidade falhou durante a Kristin, a casa, localizada em Milagres, continuou operacional.

O sistema de painéis solares com baterias de armazenamento foi o pilar desta autonomia, embora Pedro Oliveira admita que é “justo dizer que também houve alguma sorte em não ter perdido os painéis”, quando muitos destroços vindos das habitações à volta, atingiram a cobertura da casa, não acertando no sistema por milímetros.

Pesou ainda para esta “sorte” o modo como esses mesmos painéis foram protegidos pela própria arquitectura da casa e método de instalação.

“Apesar de tudo, acho muito importante reforçar o elemento sorte, num evento com esta gravidade. Tivemos muita sorte.”

Um outro ponto inovador, com particular relevância é a resistência sísmica da estrutura.

Sem uma verdadeira fundação convencional com recurso a pilares, a casa assenta numa espécie de “almofada em betão”, uma técnica que permite à estrutura comportar-se como um amortecedor de carro, em vez de estar rigidamente presa ao solo.

“A base é aligeirada. Ela vai reagindo consoante o solo se comporta”, descreve o técnico, comparando a habitação a uma bóia numa superfície de água que, independentemente da agitação, não vai ao fundo.

Resistir sem reagir

Para o presidente da Associação Passivhaus Portugal, a casa passiva não é um luxo nem uma tendência passageira.

É a resposta mais sólida que a construção tem para dar a um mundo de eventos climáticos extremos, apagões e falhas de infra-estruturas.

João Marcelino explica que um lar “verdadeiramente auto-suficiente é uma casa que consegue assegurar todas as funções necessárias ao conforto, segurança e utilização do edifício sem qualquer input exterior, como fornecimento de água ou de energia, e sem depender de ligações a redes infra-estruturais”.

Já uma casa eficiente consegue executar todas as funções com o mínimo de recursos, nomeadamente energia e água, diferente de prescindir deles.

Quanto mais eficiente o edifício for, menos energia terá de ser gerada e armazenada
João Marcelino

A Passive House, o padrão que a associação promove e certifica em Portugal, posiciona-se neste espectro como o mais exigente padrão de desempenho energético aplicado a edifícios reconhecido internacionalmente.

“Quando falamos de desempenho, estamos a falar de critérios claramente definidos: conforto térmico e acústico, qualidade do ar interior, ausência de patologias e eficiência energética”, precisa o responsável.

O que torna a Passive House relevante no contexto de eventos extremos como a tempestade Kristin vai além dos painéis solares e das baterias.

“Uma das maiores vantagens é que a sua capacidade de resistir a interrupções no fornecimento de energia resulta sobretudo das características passivas do edifício, através de isolamento térmico, elevada estanquidade ao ar, eliminação de pontes térmicas, e não apenas da instalação de equipamentos adicionais.”

João Marcelino identifica na energia e na água, dois parâmetros essenciais.

Do lado da energia, o edifício precisa de sistemas de produção local - solar, eólica ou hídrica - “coadjuvados” por sistemas de armazenamento e gestão.

“Quanto mais eficiente o edifício for, menos energia terá de ser gerada e armazenada”, sublinha. Uma Passive House consome uma fracção da energia de um edifício convencional.

Do lado da água, a autonomia implica captação, armazenamento, reutilização e tratamento de águas residuais, cinzentas e negras. João Marcelino vai mais longe, referindo o conceito WEFIbuilding - Water Energy Food almost Independent building, que adiciona uma terceira dimensão: a produção local de alimentos.

Um edifício que produz a sua própria energia, gere a sua própria água e contribui para a sua própria alimentação é, na prática, uma infra-estrutura resiliente de forma integrada.

Quanto custa e o que se ganha

A questão do investimento é a primeira barreira que os potenciais construtores colocam.

Se a meta for resistir a falhas de algumas horas ou poucos dias, os sistemas necessários são simples e acessíveis.

Se for a autonomia de semanas ou meses, os sistemas têm de ser mais robustos e o custo sobe.

“Por exemplo, um edifício Passive House com elevada eficiência hídrica precisará apenas de sistemas ligeiros de armazenamento de água e energia para conseguir suprir as necessidades. Neste cenário o investimento adicional não será muito elevado.”

Para fazer baixar o preço, o melhor é crescer em escala, ou seja, quanto maior o número de edifícios envolvidos, mais facilmente se alcança a auto-suficiência e mais barato fica por unidade.

As comunidades de energia renovável, que começam a surgir em Portugal, são um exemplo desta lógica aplicada, refere.

“Hoje, podemos ter edifícios Passive House sem que haja um acréscimo do custo de construção em comparação com valores praticados em edifícios convencionais. Tudo vai depender da optimização e da inteligência aplicada no projecto.”

A poupança acontece na operação, não na construção.

A tempestade Kristin, que a 28 de Janeiro de 2026 deixou a região de Leiria sem electricidade, água e comunicações durante dias ou semanas, tornou visível uma vulnerabilidade que os especialistas alertam há anos: os edifícios não estão preparados para eventos extremos.

“A Passive House permite alcançar o máximo desempenho ao nível dos edifícios em qualquer clima ou contexto geográfico.”

A isto junta-se o conceito Building as Battery, o edifício como bateria térmica, que aumenta a resiliência através da elevada inércia térmica e das reduzidas trocas de calor.

Um edifício Passive House, mesmo sem electricidade, mantém temperaturas interiores estáveis durante muito mais tempo do que uma construção convencional, porque a sua envolvente simplesmente não deixa o calor entrar ou sair.

“Para nós a solução é óbvia. Precisamos da transição do nosso parque edificado para níveis de desempenho mais elevados, quer seja através da construção nova quer seja sobretudo através da reabilitação, para desse modo conseguirmos ter edifícios que resistem melhor a períodos de falhas das redes de abastecimento”, afirma João Marcelino.

Mas o presidente da associação é realista quanto às barreiras que é necessário ultrapassar.

“Esperamos em breve anunciar o primeiro edifício de apartamentos, o primeiro hotel ou o primeiro edifício público com certificação Passive House.”

À semelhança do primeiro edifício de escritórios certificado em Portugal no ano passado, o nZEBoffice+, sede da própria associação em Ílhavo, as futuras certificações pioneiras deverão funcionar como demonstradores capazes de “iluminar o caminho” e contribuir para a “transição do parque edificado em Portugal”.

A urgência, diz Marcelino, é real.

Os eventos climáticos extremos deixaram de ser excepção para se tornarem recorrência.

E cada edifício que se constrói ou reabilita hoje sem critérios de desempenho é um edifício que amanhã vai falhar e arrastar quem lá vive consigo.