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Autoridades continuam a tentar salvar a Casa-Museu Afonso Lopes Vieira
Esta quinta-feira, técnicos de várias entidades, no local e à distância, mantêm-se a acompanhar a situação
Uma operação de emergência, com monitorização contínua, anuncia a Câmara da Marinha Grande. Equipas municipais e técnicos do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) têm vindo a analisar soluções de estabilização da Casa-Museu Afonso Lopes Vieira, em São Pedro de Moel, que, como confirma a autarquia, apresenta “estragos significativos na estrutura”, provocados por “recentes episódios de mau tempo” e “forte agitação marítima”.
Esta manhã, os bombeiros de Algés (concelho de Oeiras) continuaram a dar apoio no local e por indicação da Câmara da Marinha Grande retiraram uma estátua (réplica da original) de Santo António que se encontrava colocada numa das paredes exteriores do edifício. Também realizaram trabalhos no telhado.
Ouvido na segunda-feira (9 de Fevereiro) pelo JORNAL DE LEIRIA, o vereador Sérgio Silva reconheceu que a Casa-Museu se encontra “muito abalada estruturalmente”.
De acordo com o autarca, que tem o pelouro da Cultura, “há risco sério de ruir, não o edifício na totalidade, mas a parte da varanda marquise, com o muro”, enquanto a zona da capela “parece estar sólida”.
“É um problema que começa na rampa de acesso à praia”, parcialmente destruída.
Além do LNEC e da APA, a Marinha e a Património Cultural já estiveram no terreno, e empresas privadas, com o objectivo de definir a melhor estratégia para salvar, pelo menos parcialmente, o imóvel com mais de cem anos, que tem interesse histórico e cultural.
Entretanto, e com a ajuda de voluntários, a autarquia procedeu à retirada, por prevenção, de bens que estavam no interior da antiga residência de Afonso Lopes Vieira, como livros e objectos pessoais, de modo a salvaguardar o acervo associado ao poeta, com o objectivo de “evitar qualquer perda irreversível”.
Para conter a situação, considerada “muito preocupante”, a Câmara adianta que “são apontadas soluções complexas, envolvendo a colocação de rochas de grande dimensão e acções minuciosas para reforçar a sustentação do solo”. A prioridade é “reduzir ao mínimo o escorrimento subterrâneo e estabilizar o solo fragilizado”.
“Um dos desafios mais críticos é impedir que o escoamento de água continue a arrastar areias, fenómeno que debilitou a base do edifício e parte do muro de suporte”, informa a nota divulgada anteontem pelo Município.
“A violência conjugada da chuva intensa e das marés fez com que água e areias se comportassem como um único fluido, infiltrando-se por debaixo do pavimento e retirando sustentação ao edifício, aumentando de forma alarmante o risco de derrocada”, pode ler-se.
Construída onde a terra começa, de frente para o mar, a casa foi oferecida pelo pai de Afonso Lopes Vieira como prenda de casamento, ao poeta e à sua mulher, Helena Aboim, em 1902.
De acordo com a informação disponível no site do Município da Marinha Grande, foi na Casa-Nau, como lhe chamava, que Afonso Lopes Vieira escreveu grande parte das suas obras literárias, ensaios e artigos e recebeu nomes relevantes das artes e da literatura portuguesa do princípio do século XX.
“A casa constitui em si um testemunho literário da obra de Afonso Lopes Vieira, na medida em que possui diversos elementos decorativos mandados aplicar por este, ao longo da sua vida (principalmente expressos em lápides e azulejos) que aludem a algumas das suas obras”, é referido no mesmo texto.
Em 1938, no seu testamento, Afonso Lopes Vieira legou a casa à Câmara Municipal da Marinha Grande, para que ali fosse instalada uma colónia balnear infantil para os filhos dos operários vidreiros, bombeiros e trabalhadores das matas nacionais, que se encontra a funcionar desde 1949
Na propriedade, existe uma capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima, mandada construir pelo poeta para a sua mulher e inaugurada em 12 de Agosto de 1929
A autarquia assegura agora que está a trabalhar para que a Casa-Museu, “um dos símbolos culturais mais relevantes de São Pedro de Moel", possa "voltar a estar segura e preservada para o futuro”.