DEPRESSÃO KRISTIN
Annarella Sanchez: “Vou terminar o ano lectivo em Leiria. Mas depois não sei”
Trabalhos de recuperação da escola já começaram e há uma recolha de fundos a decorrer
Está em curso a recuperação das instalações na Gândara dos Olivais e as aulas continuam, agora, e provisoriamente, noutros espaços da cidade, mas, face aos prejuízos causados pela depressão Kristin, Annarella Sanchez hesita sobre o futuro do conservatório que recebe estudantes do mundo inteiro e forma bailarinos e bailarinas para companhias de vários continentes. “Vou terminar o ano lectivo em Leiria, porque sou uma pessoa que me considero forte. Mas, depois, eu não sei. O que vai acontecer nos próximos anos, não sei”.
Actualmente, 70 alunas provenientes de vários países, que frequentam o Conservatório Internacional de Ballet e Dança Annarella Sanchez, vivem em Leiria. Como toda a população do concelho, na madrugada de 28 de Janeiro ficaram sem luz, água e comunicações, por causa do temporal.
“Foi difícil, claro”, reconhece a professora e directora pedagógica. “A minha primeira reacção: não ficar parada, não ficar quieta. Como já fiz aquando da pandemia, peguei num carro e fui a caminho de Lisboa, a caminho de onde tivesse rede, para informar os pais da situação das meninas, que estavam todas vivas e bem de saúde”.
As obras já começaram, de dentro para fora, com o objectivo de retomar a normalidade, logo que possível. Paralelamente, as actividades decorrem no Teatro José Lúcio da Silva, na Black Box, no Colégio Nossa Senhora de Fátima e na Biblioteca Municipal.
Annarella Sanchez insiste que o objectivo é ficar em Leiria, embora existam outras possibilidades, noutra regiões, até para o imediato. “Tenho várias propostas, tenho, sim”.
Entretanto, a campanha de angariação de fundos lançada na plataforma gofundme.com vai com quase 25 mil euros recolhidos – esta sexta-feira, 6 de Fevereiro, às 8h30 horas – que correspondem a 89% do objectivo final, fixado em 28 mil euros.
Em causa, a reparação urgente de telhados, evitar mais danos no chão (próprio para ballet, com caixa de ar) e resolver estragos causados pela água, incluindo em aparelhos de ar condicionado, pianos e equipamento de som.
Com a força da tempestade, os tectos colapsaram em quatro estúdios e um deles, a sala sete, “está perdida”.
“Não posso parar, porque tenho meninas de fora que lhes tenho de dar apoio, apoio de mãe, apoio de família. Nós somos a única escola [no concelho] com essa característica”, assinala Annarella Sanchez, que dirige um colectivo de 12 professores.
“O Conservatório que fundei em Leiria não é apenas um espaço físico. É um lugar onde, todos os dias, crianças e jovens vêm para trabalhar, sonhar, desenvolver disciplina e crescer tanto como bailarinos quanto como indivíduos”, lê-se na carta aberta publicada pela pedagoga nascida em Cuba, que há mais de 25 anos está radicada em Portugal.
O caso despertou o interesse da Embaixada do Japão (várias alunas são originárias do país) e da Companhia Nacional de Bailado, que manifestou solidariedade através das redes sociais, descrevendo o Conservatório Annarella Sanchez como “uma instituição cujo trabalho pedagógico e artístico tem um impacto significativo no desenvolvimento da dança e da cultura em Portugal”.
No cenário actual, qualquer donativo faz a diferença. E entre as 252 pessoas que já contribuíram na plataforma gofundme.com, há vários doadores estrangeiros.