Sociedade
50 Anos de Poder Local | Há presidentes de junta que ainda pedem saneamento básico e outros sonham com o Guggenheim
Inquérito a 16 presidentes de junta de freguesia da região
Entre 23 de Abril e 20 de Agosto, o JORNAL DE LEIRIA ouviu 16 presidentes de junta a propósito dos 50 anos das primeiras eleições autárquicas livres e em democracia, em Portugal.
Perguntámos quais as principais preocupações e o que fariam com um orçamento ilimitado.
As respostas a este inquérito desenham o retrato de um território a duas velocidades, retrato esse que continuaremos a actualizar até ao final do ano, quando se celebrar a data das primeiras autárquicas de 1976.
Há respostas para todos os gostos, umas mais a brincar, outras mais sérias. Por exemplo, João Pimpão, autarca das Meirinhas, no concelho de Pombal, convidaria Jesus Cristo para presidente honorário, para fazer "o milagre de dotar as freguesias dos recursos necessários".
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Do saneamento básico ao Guggenheim
Mas há respostas que vão das necessidades mais básicas a uma concepção disruptiva daquelas que deveriam ser as apostas de desevolvimento das freguesias. Se Orlando Cavaco, da Urqueira, em Ourém, garantiria saneamento básico em toda a freguesia: 1.500 habitantes dispersos por 32 quilómetros quadrados, com casas isoladas que tornam a obra "particularmente complexa e dispendiosa", a escassos quilómetros, Paulo Clemente, dos Marrazes e Barosa (Leiria), com 26.228 fregueses, ergueria um centro cultural inspirado no Museu Guggenheim de Bilbau. Entre duas freguesias do mesmo distrito medeia a distância que vai da infra-estrutura básica em falta ao equipamento cultural de afirmação internacional de uma região.
O equipamento colectivo é o consenso
Seis dos 16 autarcas gastariam o orçamento ilimitado num centro cultural, num pavilhão multiusos ou num complexo que acumule ambos. É o caso dos Marrazes e Barosa, Monte Redondo, Alfeizerão, Parceiros e Azoia, Porto de Mós, que os querem ao serviço de todo o concelho, e Fátima, onde Carlos Neves imagina uma "mini-cidade" junto ao estádio municipal, com creche, primeiro ciclo e instalações desportivas. Outros quatro escolheriam melhorar a rede viária, passeios e espaço público.
Envelhecimento e fuga dos jovens
Nas preocupações, a demografia domina.
O despovoamento das aldeias, o envelhecimento e a fixação de jovens são pontos de preocupação em Alburitel, na Urqueira, em Pombal, no Reguengo do Fetal, em Alfeizerão e em Monte Redondo (Leiria).
Carla Longo criaria em Pombal "uma verdadeira rede de afectos comunitários". Patrícia Santos, em Alqueidão da Serra (Porto de Mós), optaria por um espaço residencial para garantir "um final de vida condigno". Álvaro Cardoso, na Vieira de Leiria (Marinha Grande), quer médico de família para todos os seus fregueses.
A sombra da Kristin
A tempestade Kristin e o seu impacto atravessa quase todas as respostas. Manuel Faria, da União de Freguesias de Leiria, Pousos, Barreira e Cortes, fala de uma "corrida contra o tempo" na limpeza da floresta. Isabel Freitas, na Marinha Grande, acusa o governo central de "inoperância" nos apoios. No Reguengo do Fetal (Batalha), Luís Santos elogia o Carvalho do Padre Zé, com quase 470 anos, que resistiu aos ventos ciclónicos. E Ana Carla Gomes, de Monte Redondo (Leiria), chamaria à sua presença o rei D. Dinis só para lhe perguntar o que pensaria hoje do estado Pinhal de Leiria.
Saramago, D. Dinis e um milagre
José Saramago é o nome mais escolhido, quando se desafia os autarcas a sugerir um presidente honorário, com três indicações. D. Dinis e o Marquês de Pombal reúnem duas cada. Seguem-se Aristides de Sousa Mendes, D. Afonso Henriques, D. Fuas Roupinho, Barack Obama, Michelle Obama, Luís Montenegro e, nos Marrazes, uma criança. Já a ideia de maior impacto pertence a Sandra Martins, de Alvados e Alcaria, que defende uma ponte suspensa até Porto de Mós, na zona das Lapas.
Retrato de quem manda na freguesia
Os 16 inquiridos dividem-se em dois grupos de oito mulheres e de oito homens, num sinal de paridade desejável na sociedade nos corredores do poder político. A idade média é de 54 anos, que se divide entre os 30 de Inês Delgado, em Alfeizerão, e os 72 de Isabel Freitas, na Marinha Grande. Nove foram eleitos pelo PSD, cinco pelo PS, uma pela CDU e uma por um movimento independente.
Nenhum coloca a habitação no topo das preocupações, ao contrário do que domina o debate nacional. E quase todos apontam o mesmo limite. Isabel Freitas di-lo sem rodeios: "para realizar projectos era necessário que a junta tivesse mais competências".