Entrevista

"Sou José Luís Tinoco, autodidacta"

16 abr 2026 10:02

José Luís Tinoco, filho ilustre de Leiria, não visitava a cidade desde 1957, pois preferia guardar na memória a imagem de uma pequena cidade, rica em tertúlias, teatro e concertos

José Luís Tinoco
Fotografias: Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Entrevista originalmente publicada a 9 de Maio de 2013

O compositor, artista plástico e arquitecto José Luís Tinoco morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa, aos 93 anos.

Um dos grandes nomes da cultura nacional, nasceu em Leiria a 27 de Dezembro de 1932, filho da pianista e professora Maria Carlota Tinoco e de Agostinho Gomes Tinoco, antigo reitor do Liceu de Rodrigues Lobo, de Leiria.

Arquitecto, pintor, músico e poeta — classificação que rejeitava —, não gostava de dar entrevistas e contam-se pelos dedos de uma mão as que deu.

"Uma coisa sou eu a conversar e outra sou eu a ser grafado", explicou ao JORNAL DE LEIRIA, numa dessas entrevistas, em Maio de 2013.

Perfeccionista feroz, procurava incessantemente a utopia da beleza, perseguindo sempre tudo até às últimas consequências.

"Até na Arquitectura andava sempre à procura de uma solução que não existia ainda."

Conversador nato, era uma fonte inesgotável de histórias de vida e da vida cultural nacional.

Com apenas 22 anos, foi nomeado para o Prémio Valmor, viveu os primeiros tempos do Hot Clube, desenhou mais de 200 selos para os CTT, foi pintor, escreveu fados cantados por Simone, Carlos do Carmo e Cristina Nóbrega e até venceu o Festival da Canção.

Autodidacta do piano, contrabaixo e viola, gravou com Laginha e Sassetti o álbum I, editado em Dezembro de 2008.

Descrevem-no como arquitecto, pintor, músico e poeta — classificação que rejeita —, devido à quantidade de áreas da criação artística a que se dedica... É possível colocar um artista tão multifacetado dentro do espartilho de uma classificação?

Para mim é difícil... isso caberá a quem se interessar pela minha pessoa. De facto, do ponto de vista académico, sou um arquitecto. Essa é a minha formação. Não sei responder à pergunta sobre o que sou. O que é uma pessoa neste Mundo? É aquilo que começa a dar indícios desde a nascença. Se tivesse de me classificar, diria que sou José Luís Tinoco, autodidacta. Desde pequenino, que, virtualmente, poderia ser músico ou pintor, até porque vivia no meio da música e pintura. Tive esse privilégio. Leiria tinha um ambiente cultural extremamente rico, quando eu era criança. Creio que era um miúdo que estava destinado à pintura. A minha mãe até desistiu de me ensinar música porque eu tirava as coisas de ouvido... Ela fez ainda duas outras tentativas de me ensinar piano, com dois professores. E eles também desistiram. Aprendizagem não era comigo. Não há hipótese, sou um caso irrecuperável. Tinha de estudar e saber escalas... Ainda hoje, não sei ler nem escrever música. Por isso, eu teria de ser pintor. Mas levantava-se um problema. Sê-lo, em 1948, quando entrei para a Escola de Belas Artes, era uma profissão de risco. O meu pai dizia que, como o meu irmão estava a acabar o curso de Arquitectura, até seria giro os dois sermos arquitectos. Acatei e joguei numa coisa que me dava mais garantias de futuro. Contudo, ao mesmo tempo que estava no curso, ia pintando e desenhando. Não era bem um "pintor de domingo", mas alguém que, de forma intermitente, ia fazendo umas "coisas". Mais tarde, quando me "zanguei" com a Arquitectura, fui descoberto como pintor por Sommer Ribeiro, que era director do Centro de Arte Moderna. Ele fez uma exposição individual comigo na Gulbenkian e, assim, passei a ser arquitecto, pintor e músico — porque desde miúdo que tocava em bandas académicas e, naquele tempo, era pianista no Hot Clube. Era músico por condição, era pintor por condição, era arquitecto por gosto e formação académica e o resto veio por acréscimo. A minha vida é isto... É uma canseira.

Tive uma educação de contexto. Pois foi. Paralelamente a isto, os meus pais formaram o círculo de cultura musical. Era por isso que passavam tantas celebridades lá por casa. Quando se percebeu que Leiria não tinha estrutura para aguentar mais épocas desse círculo, os meus pais voltaram-se para a Pró-arte. Uma coisa com características semelhantes, mas de âmbito nacional, só com instrumentistas portugueses.

Quando foi que desistiu da Arquitectura?

Quando me apercebi do seu carácter efémero e precário. Não me contento com coisas que são para destruir. Por outro lado, o que marca uma peça de arquitectura é o objecto, que dá um trabalhão bestial a descrever. O penúltimo projecto que fiz no distrito — depois desse, ainda fiz o mercado de Pombal — era uma moradia, que já foi destruída para fazerem um prédio, tinha um dossier com dezenas de centímetros. Até a mobília desenhei! Uma pessoa demora um ano para fazer um projecto — tem de o conceber e depois descrever em três dimensões — e, no fim, a obra não se faz, ou é adulterada ou destruída. Apercebi-me disso mais ou menos na altura em que comecei a ter limitações de saúde... Por sorte, quando estava nessa condição, descobriram-me como pintor e grafista. Também foi aí que começou a minha carreira com os selos. Fiz mais de 200.

Na música, também deixou o seu cunho. Escreveu letras para temas cantados por Carlos do Carmo e Cristina Nóbrega. Venceu o Festival da Canção de 1975, com o tema Madrugada, para o qual escreveu a música e a letra. Tocou jazz e até rock progressivo. Normalmente, um músico tende a manter-se num género base. Como consegue fazer essa mescla entre fado, jazz, rock, música ligeira?

Esse Festival da Canção foi engraçado. Fui lá meter o voto e depois fui, descansado, para casa. Passado um bocado, ligaram-me a dizer que tinha de ir receber o prémio porque tinha ganhado. A Madrugada foi cantada por Duarte Mendes, um dos capitães de Abril... Mas essa é a pergunta mais embaraçante que me podem fazer. Sempre que me perguntam como consigo fazer isso, eu respondo: "com muita dificuldade", tal como os porcos espinhos. Também já me disseram que pareço um homem da Renascença e eu fico à rasca. Neste momento de confissão sincera, vou dizer-lhe que as pessoas que têm uma formação com plasticidade, conseguem um determinado ecletismo de produção. Felizmente, consegui, em cada um dos campos, ir dando conta do recado, embora sem os mesmos resultados que conseguiria, se me debruçasse a 100% em cada um deles.

Sentiu influências da sua mãe que era uma pianista bem conhecida em Leiria?

Não. Quando um músico nasce já vem com toda a informação. Mas há enquadramentos propiciatórios. Nesse aspecto, tive a sorte de ter nascido numa casa onde havia uma pianista a preparar os seus recitais e a ensinar as meninas leirienses. Havia ainda uma colecção de arte, relativamente modesta, é certo, mas com quadros bem escolhidos. Existia uma tradição na família de alimentar o gosto por coisas visuais. O meu tio era pintor, o meu irmão que se estava a formar em Arquitectura, também o era... Naqueles anos 30, acontecia na cidade um acontecimento cultural com muita piada. Chamava-se Horas de Arte e era organizado pelo meu pai com o apoio da associação de estudantes do Liceu de Leiria. Eram umas galas no Teatro Maria Pia, com as capas dos estudantes nos frisos e tinham a duração exacta de uma hora. Na primeira parte, havia conferências e declarações, na segunda, havia recitais de música de solistas, de câmara... e era transmitido em directo na rádio, até para o estrangeiro, com locução de Fernando Pessa. Mais tarde, os meus pais até fundaram um ciclo de cultura musical. Para mim, era um fascínio entrar na sala-de-estar lá de casa e ver ali craques mundiais, que iam lá a casa para um chá e torradas — o meu pai não tinha dinheiro para whiskey. Toquei para o Sérgio Varella-Cid e uma vez foi lá o Gaspar Cassadó, que era comparável ao Pablo Casals, e que levava um pianista que o acompanhava que salvo erro tinha o mesmo apelido de Busoni. Era um tipo muito simpático. Sentou-se ao piano e tocou o Night and Day. Fiquei vidrado.

Como apareceu o Hot Clube na sua vida?

Foi na fase pioneira do Jazz. Aquela era uma modalidade musical um pouco marginalizada devido ao estigma de toda a negritude e às drogas. Os meus pais estavam sempre preocupados. Desde miúdo, ainda de calções, que tocava tangos, boleros, sambas, boogies, temas do Glen Miller. Mais tarde, no Hot Clube, embora não tivesse informação suficiente, chegava lá, percebia como é que as mãos tocavam os sons e aqui vai disto! Sempre houve música na minha casa, na Travessa do Comércio n.º 2, que dava para a Praça Rodrigues Lobo, em Leiria. Havia dois pianos. Um para as meninas matraquearem e estragarem e outro para a minha mãe ensaiar. Recordo-me que ela dava licença para que eu e o Vasco Henriques, super dotado, tocássemos no piano vertical a quatro mãos. Eram umas desbundas! Depois vinha o meu irmão, que também tocava. E o Korrodi e o primo dele, o João Telo. Às vezes, havia coisas tão loucas que era preciso o vizinho de baixo bater com o cabo da vassoura no tecto para nós acalmarmos. Leiria era uma coisa giríssima!

Havia um ambiente cultural em Leiria interessante nos anos 30/40?

Era como uma tertúlia. Se era apenas para uma elite restrita? Era e não era. As pessoas sentiam-se muito bem na minha casa e tenho uma recordação muito viva desses serões. Os amigos vinham e não se faziam anunciar. Tocavam à campainha e subiam. Conversava-se... havia um amigo que era especialista em contar resumos do cinema e narrava os filmes aos meus pais. Aliás, o meu pai, sempre disse que não gostava do cinematógrafo. E quando não se conversava, fazia-se música. Havia um que aparecia com o violino, depois outro com o violoncelo, a seguir o Luís Fernandes com uma maqueta de uma peça de Natal... Eu ali, pequenino, assistia e era um fascínio.

Hoje, diz-se que quando se vive fora de Lisboa e Porto está-se fora das principais rotas culturais. Naquela época, quando as distâncias eram maiores e Leiria uma cidade de província, sentiu alguma vez que isso fosse condicionador da sua educação artística?

Pelo contrário. Era uma cidade viva. A única coisa que terá sido parcialmente castrada foi a carreira de pintor que se anunciava. As pessoas que formavam essa excelente comunidade de artistas de Leiria morreram ou foram-se embora, passados uns anos de eu ter saído de lá. Em 1948, fui para a universidade, no Porto, com 15 anos... foi uma violência que me deixou marcas para o resto da vida. A Arquitectura puxa por uma pessoa de uma forma avassaladora. Foi o único ano em que foi possível a entrada de alguém tão novo... Anos depois, a primeira obra que fiz, foi uma moradia no Restelo, quando tinha 22 anos.

A que foi seleccionada para o Prémio Valmor?

Nesses anos e nos seguintes, o prémio não foi atribuído. Nunca percebi porquê. Ser seleccionado foi uma surpresa, pois eu era um miúdo completamente desenraizado... A malta da minha idade, na Escola de Belas Artes de Lisboa, estava ainda a tirar o curso e eu já estava a trabalhar com o Trindade Chagas. Hoje, evito a rua onde está essa casa, pois aquilo, a seguir ao 25 de Abril, foi vendido a um senhor que rapidamente mudou o meu portão por outro com umas coisas retorcidas, pôs mais um andar em cima... A casa que era, dentro do pensamento organicista, moldada aos desníveis do terreno, ficou completamente transfigurada. Teria sido poupada se eu, por milagre, tivesse ganhado o Valmor. Ver aquilo foi um dos maiores choques da minha vida e contribuiu para o meu abandono da Arquitectura.

Sente que marcou a arquitectura e deixou a sua influência nessa arte?

A minha casa do Restelo e a de São Pedro de Moel serviram de inspiração a outros projectos. Mas também fui influenciado no meu trabalho. Por exemplo, por Frank Lloyd Wright, na arquitectura. As minhas obras têm sempre um elemento aquático... a casa do Restelo, tinha um pequeno lago...

E quem o inspirou na pintura, música e nas outras artes a que se dedicou?

Uma vez, fizeram-me essa pergunta e eu respondi: todos os gajos de quem gostei. Creio que continuam a ser os mesmos.

É uma referência como pintor, músico, designer e arquitecto. Se fosse de outra nacionalidade, acredita que teria outro tipo de reconhecimento da sociedade?

Não faço a mínima ideia. Mas posso dizer-lhe uma coisa com uma certeza absoluta: se em vez de ter ficado aqui, tivesse ido para a Slade School, como foram a Paula Rego e o Sá Nogueira, entre outros, seria muito melhor pintor. Até porque teria começado a pintar muito mais cedo. Até aos anos 70, quando comecei a fazê-lo a sério, só desenhava bonequinhos e cartoons. Sempre fui muito anglófilo nas minhas escolhas externas. O meu pai também o era e eu habituei-me a ouvir as notícias da guerra na BBC, por isso, sempre tive uma sintonia muito grande com a cultura inglesa, tradição artística e cinematográfica... Se tivesse saído daqui, teria sido um pintor com uma dose de informação e experiência mais bem assimilada. Teria sido muito bom se tivesse ido lá para fora e aguentado estar no estrangeiro. O que era difícil... O Porto já me foi difícil... Na pintura, acabei por me formar sozinho, comprando livros, que são o meu único luxo. Comecei a comprar, a absorver e ver. Mais ou menos o mesmo se tivesse querido ser escritor. Teria, necessariamente, de ler, ler, ler.

A qualidade da sua pintura é reconhecida a nível nacional. A Câmara de Leiria, por exemplo, comprou várias obras suas para o espólio do antigo Banco de Portugal...

É curioso que só há pouco tempo comecei a ser conhecido. Quando o meu filho mais novo criou um portal na internet, com obras minhas. Várias das obras do espólio da câmara vão estar presentes no concerto-homenagem que Cristina Nóbrega me vai fazer em Leiria, no dia 17 de Maio. Possivelmente, vai lá estar também uma versão que fiz do quadro Fado, de Malhoa, para o Museu do Fado.

Sou uma antítese — "Só quero que não reparem em mim"

O 25 de Abril fez anos há dias, como se relacionavam as pessoas ligadas às artes com o Estado Novo?

Isso sim, era castrador. Comigo, nunca houve grandes problemas. Nunca tive manifestações que eles considerassem preocupantes. Era um puto arquitecto que ia quase todas as noites para o Hot Clube. Em 1961, por problemas de saúde, deixei de lá ir.

Os ideais de Abril, que imortalizou no tema Madrugada, foram atingidos?

O sector dinamizador e activo da nossa política foi, como toda a gente sabe, e a História já demonstrou, direccionado para uma determinada finalidade que não se concretizou. No dia 25 de Abril de 1974, vinha aí o socialismo! Lembro-me perfeitamente. As conquistas de Abril têm várias leituras, consoante os olhos de quem vê. Os meus, são exactamente os mesmos do dia 24, em termos da análise. Houve olhos que, no dia 26, descobriram subitamente que eram democratas. Celebrei o 25 de Abril à minha maneira com a canção Madrugada, que não foi bem vinda. Aliás, também o Camaleão também não foi bem vindo. Fui eu que fiz a capa e escolhi um camaleão vermelho.

E na música? Que diferenças há entre o antes e o depois da revolução?

Todas. Uma vez fiz parte de um júri — fartei-me de ser jurado... até da Cornélia fui — de um Festival da canção que foi feito em três sessões. Estavam eu, o Tudella, o Villas-Boas e o Nazareth Fernandes. Na final, venceu o Nóbrega e Sousa, com a letra do Sobe, sobe balão sobe. Chamaram-me a atenção por ele ser um "homem do regime". Mas eu estava ali para avaliar a música e não o antigo regime. Confessei que não me identificava com aquele tipo de música, mas tinha de admitir que o maestro Nóbrega e Sousa era um homem que sabia compor, portanto votei nele. Fiquei impopular. Havia várias diferenças estéticas... Apesar de tudo, no antes, havia uma certa qualidade. Demodé e pirosa, mas havia. Afinal, também fui um dos que furou o bloqueio do antes com o Homo Sapiens, um disco de rock/jazz progressivo... fiz aquilo ao órgão. Nem sequer tinha sintetizador!

E hoje? Identifica essa qualidade na música actual?

Há exemplos bons que não vou especificar, pois seria deselegante fazê-lo. Mas são raros. Faz-me confusão a jactância de certos gajos iluminados que escrevem sobre música e outras artes... Muitos "críticos" nem sabem do que falam. Qualquer arte é uma coisa de análise difícil. E também me choca o marketing. De mim, já disseram que sou conhecido pelos esforços que faço para não ser conhecido. Sou a antítese de vários artistas da actualidade. Só quero que não reparem em mim.

"Não há ninguém que me convença a regressar" — "Leiria é um local com semáforos e automóveis"

Há quantos anos não vai a Leiria?

Desde 1957. Tenho uma enorme ternura por Leiria... Pela minha Leiria. Nessa data, fui ver uma obra a Ponte de Sor — uma obra que nunca vi depois de concluída, tal como, aliás, também nunca vi a casa de São Pedro — e passei pela cidade. A minha Leiria é a da Praça Rodrigues Lobo, do Jardim de Camões, do castelo, do Jardim-Escola João de Deus, do Gato Preto que tinha uma menina de óculos que tocava piano, e do Liceu... até 1948. Depois, fui para o Porto viver numa pensão, onde tinha o privilégio de ver o Querubim Lapa a pintar. Para mim, Leiria é um regresso impossível. A minha era uma cidadezinha de província, com uma escala humana como raramente encontrei noutros sítios do País. Não havia prédios altos, não havia elevadores e o castelo fascinava-me. Passava a vida a trepar as suas muralhas. Dava a volta inteira ao castelo, passando apenas pela pedra lisa, fazendo como as salamandras ou outro anfíbio. Já o Bairro dos Anjos, do outro lado do rio Lis, naquela época, era outro mundo... Era o red light district da cidade. Leiria era também a música, a seita de amigos do meu irmão, os lindos arredores e o teatro Maria Pia. Na última vez que vi Leiria, vi o teatro a ser destruído. Foi triste. A única coisa que, naquele momento, ainda estava de pé era a estrutura da boca-de-cena. Aquilo fez-me tanta impressão... foi até às lágrimas. A bestialidade da demolição daquele edifício cheio de história. À minha frente, estava o esqueleto de uma coisa defunta. Podiam tê-lo refeito ou ampliado. Leiria perdeu naquele dia parte da sua história cultural. Ninguém imagina as pessoas que passaram por aquele palco, as coisas que ali aconteceram... até eu lá estive a fazer uma rábula.

Do que vai ouvindo e lendo, que imagem tem da cidade actual?

Leiria é um local com semáforos e automóveis. Na minha juventude, andava pelas ruas sem ter de olhar para o lado. Havia poucas viaturas; o carro do Korrodi, um Ford de cuja matrícula ainda me recordo, o do professor Biel... O automóvel e o frigorífico eram, naquela época, um privilégio. Quem os tinha era rico.

Por que razão receia ir a Leiria?

Se lá fosse agora, iria ter a sensação de passear num cemitério. Ir à Praça Rodrigues Lobo e ver a minha casa? Onde estão a minha mãe, o meu irmão e o meu pai? Tenho parte dessas vivências registadas num livro que comecei a escrever e que, se calhar, nunca mais acabo. Não há ninguém que me convença a regressar. Além da tristeza, seria angustiante. Há coisas que não têm solução. Há pessoas que pensam que é por causa do meu feitio que não regresso... Não. É por coisas objectivas. Conservo uma imagem que não é só visual. É afectiva...

O que lhe reserva o futuro, José Luís Tinoco?

Quero voltar à música, assim que o período de nojo do último disco terminar. Aquilo consumiu-me de tal maneira, que nem me sento ao piano. Sempre descurei a documentação dos meus trabalhos. Não guardei os projectos de arquitectura e não tenho portfólio, mas gostava de fazer uma exposição com os meus originais de ilustração e filatelia. Gostava também de fazer uma mostra antológica com os meus trabalhos em pintura, a partir daquela primeira e determinante exposição na Gulbenkian.