Entrevista
Gonçalo Regalado: "Podemos ser para a IA aquilo que a Irlanda foi no software"
30 jul 2026 08:00
O presidente do Banco Português de Fomento, diz que as empresas têm mais depósitos do que crédito e que isso é "um bom problema". No distrito mais atingido pela tempestade Kristin, pede aos líderes das PME que se unam e ganhem escala
Chegou ao Banco Português de Fomento em 2025 e fez várias mudanças. Que balanço faz até agora do mandato?
A casa estava um bocadinho desarrumada, mas, hoje, há consenso sobre o trabalho do banco. Passámos de uma produção muito pequena, cerca de 500 milhões de euros por ano, apoiávamos duas mil empresas, para uma produção muito mais marcante. Em 2025, ultrapassámos os 6.500 milhões de euros e multiplicámos por mais de 13 vezes o nosso impacto na economia portuguesa. Apoiámos de forma estrutural, no ano passado, praticamente 16.500 empresas, em quase 19 mil operações. Para 2026, depois do ano da mudança, queríamos o ano da consistência, para conseguirmos ganhar raízes mais fortes. Contudo, na noite de percebemos que seria um ano de construção, e de capacitação da nossa resiliência interna. Nessa noite perdemos 5.300 milhões de euros, quase 2% do produto interno bruto, na maior tempestade das últimas décadas. Se tínhamos dúvidas sobre os riscos que corremos ao nível climático, ou sísmico, ou ambiental, ficou tudo mais claro. Arregaçámos as mangas e, na altura, eram 1.500 milhões apenas, mas, rapidamente, percebemos que era preciso mais dinheiro e ficámos com dois mil milhões de euros de linhas de crédito colocadas. Neste momento, há mais de 8.800 empresas com financiamento concedido e praticamente 1.700 milhões de euros desembolsados.
Continuam a ser linhas de dívida. Não são um problema para quem ficou descapitalizado?
Estas eram linhas de dívida, linhas de crédito, mas com crédito muitíssimo bonificado. As comissões de garantia foram zero, o banco não cobrou, o Estado não cobrou, e o spread ficou em 0,5%. Quantas empresas em Portugal têm crédito a 0,5%, a cinco anos na tesouraria ou a dez anos no médio e longo prazo? O que é certo é que o sistema financeiro e bancário deu uma resposta positiva, com mais de 95% das empresas, e esteve ao lado dos empresários, como já tinha estado no tempo da Covid. Aquilo que vemos hoje é a necessidade de trazer músculo adicional de subvenção. Já temos esse mapeamento feito com a estrutura de missão Reconstruir a Região Centro. Há candidaturas de grande qualidade neste bloco. Aprovámos o primeiro Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade (IFIC) da Defesa, e há muitas empresas desta região com IFIC da Indústria e centenas com IFIC da Inteligência Artificial. Aprovámos depois o IFIC da Agricultura, com dezenas de empresas desta região, e temos o IFIC da Biotecnologia, onde também há oportunidades, não tão grandes nem tão simples, mas há candidaturas. No geral, o IFIC leva já 1.200 milhões de euros de subvenções aprovadas, que mobilizaram 3.300 milhões de euros de investimento elegível, ou seja, mais de 1% do PIB. O COMPETE já lançou também a inovação produtiva e nós já estamos a trabalhar para lançar um grande programa de incentivos de capital e de garantias, e para ter um conjunto de instrumentos financeiros de inovação e competitividade dentro do Portugal 2030, o novo quadro europeu já fora do PRR.
Sabia que pode ser assinante do JORNAL DE LEIRIA por 5 cêntimos por dia?
Não perca a oportunidade de ter nas suas mãos e sem restrições o retrato diário do que se passa em Leiria. Junte-se a nós e dê o seu apoio ao jornalismo de referência do Jornal de Leiria. Torne-se nosso assinante.