12% da população vai quatro ou mais vezes às urgências por ano

Sociedade

22 Outubro 2018

12% da população vai quatro ou mais vezes às urgências por ano

Sobreutilização dos serviços tem “custos brutais” para os hospitais.

Cerca de 12% dos portugueses vai quatro ou mais vezes, por ano, às urgências hospitalares. Os dados constam de um estudo da autoria de Inês Catarino, engenheira biomédica, apresentado durante o XIII Encontro de Enfermagem do Centro Hospitalar de Leiria (CHL), segundo o qual, os utentes com menos de cinco e mais de 80 anos têm maior probabilidade de serem utilizadores frequentes das urgências (quatro ou mais deslocações por ano).

De acordo com o estudo, elaborado a partir da base de dados da Administração Central dos Sistemas de Saúde relativa a admissões nas urgências hospitalares nos anos de 2014 e 2015, “os utentes frequentes nas urgências são também frequentes nos cuidados primários”, embora isso ocorram com menor frequência entre aqueles que têm médico de família atribuído.

Por outro lado, entre os utentes que estão isentos de taxas moderadoras “aumenta a probabilidade de uma utilização abusiva” dos serviços de urgências. Inês Catarino frisa, contudo, que tal pode acontecer “não só por não haver custos associados, mas por os utentes terem patologias que implicam “a necessidade real de recorrer à urgência”.

Segundo o estudo, a doença pulmonar obstrutiva crónica, o VHIV/Sida e o consumo de álcool “são os problemas que mais aumentam a probabilidade de existir utilização frequente das urgências”.

 [LER_MAIS] “A probabilidade de um utente utilizar frequentemente uma urgência hospitalar é maior para as mulheres, crianças com menos de cinco anos, indivíduos com mais de 80 anos, utentes isentos de taxas moderador e portadores de uma ou mais doenças”, resume Inês Catarino, que sublinha a importância de aplicar medidas que combatam a utilização excessiva das urgências.

Uma das opções passará, no seu entender, pelo modelo de gestão de caso, que já está a ser utilizado em algumas unidades de saúde no País.

Durante as jornadas, foi apresentado o exemplo seguido pela Unidade Local de Saúde de Matosinhos, que, através de uma equipa multidisciplinar, faz o acompanhamento individual de utentes que cumpram determinados critérios, como ter mais de 75 anos e que registem cinco ou mais idas ao serviço de urgência e mais de três internamentos hospitalares, por ano.

O objectivo “é apostar na vigilância clínica”, através, por exemplo, da avaliação regular dos parâmetros vitais, intervenção farmacológica e não farmacológica e capacitação para a auto-vigilância, de forma a “antecipar a agudização” e evitar o recurso à urgência.

“Os casos de sobreutilização [quatro ou mais idas às urgências por ano] podem não ser, em termos absolutos, muito numerosos, mas têm impactos brutais nas contas dos hospitais. O hospital recebem o mesmo por um doente que entra com uma dor de dentes e sai medicado do que por outro que está com uma pneumonia grave”, reforçou Ana Emídio, enfermeira que integra a equipa de hospitalização domiciliária do Hospital Garcia de Orta.

Este programa, que vai ser implementado em mais de 20 unidades do País, incluindo o CHL, permite que o doente possa continuar o internamento em sua casa, tendo garantido acompanhamento “24 horas por dia e 365 dias por ano” e assegurados “os mesmos direitos” e cuidados que um doente hospitalizado.

Maria Anabela Silva
Redacção Maria Anabela Silva anabela.silva@jornaldeleiria.pt
© Jorlis - Todos os direitos reservados