Desporto para homens e mulheres… de barba rija (com galeria) Desporto para homens e mulheres… de barba rija (com galeria) Desporto para homens e mulheres… de barba rija (com galeria)

Desporto

06 Setembro 2018

Desporto para homens e mulheres… de barba rija (com galeria)

Pédevento | A secção de Carro à Vela do Núcleo de Espeleologia de Leiria (NEL) pegou num velho pelado em Porto de Mós e deu-lhe nova vida. Os velejadores voam baixinho em São Bento, onde o vento é rei

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No país de navegadores, onde as proezas dos marinheiros dos séculos XV e XVI são lendárias e uma marca importante da identidade, a maioria das pessoas vive de costas voltadas para o oceano. 

Há poucos desportos de mar e água e ainda menos os que evoquem a arte de domar os ventos. Mas, se as águas ferozes e frias do Atlântico não ajudam, já o vento está a abrir uma oportunidade de aproveitar os desportos de vela. Pelo menos, para o NEL Pédevento.

A mais recente secção do Núcleo de Espeleologia de Leiria (NEL) resulta da fusão da equipa Carro à Vela Portugal, com o clube de desportos de aventura pratica uma modalidade com cerca de centena e meia de praticantes no nosso País.

O carro à vela tem ainda a vantagem de ser um desporto inclusivo que pode ser praticado por praticamente todos. Há quatro anos a velejar juntos, David Allen e Dário Ruivo, são o núcleo duro desta modalidade na região. Adoram “voar baixinho” a todo o pano.

Foi esta a dupla que criou o Carro à Vela Portugal, uma “selecção” informal de velejadores, precursora do NEL Pédevento, que tem como objectivo praticar o desporto a nível internacional. O primeiro é um cidadão britânico que se fixou em Ansião, há vários anos, e o segundo é um amante de desportos alternativos, de Leiria.

Em Setembro de 2017, foram os únicos representantes de Portugal no 52.º Campeonato Europeu de Carro à Vela (EC2017), na Irlanda. Os cascos hidrodinâmicos são substituídos por rodas e eixos resistentes e a superfície das águas pela pista de terra batida ou a areia rija da baixa-mar, tal como acontece noutros países da Europa e América, onde o desporto é praticado por dezenas de milhar de atletas.
 

Quilómetros de vela
Núcleo duro

David Allen é um velejador de dupla nacionalidade - australiana e inglesa – mas isso não o impede de "vestir" o estandarte das quinas. Veterano deste desporto, já concorreu no Campeonato do Mundo, na Bélgica, e no Campeonato Europeu, em Hoylake, em Inglaterra (2011), envergando as cores do Reino Unido. Dário Ruivo, por seu turno, já leva 20 anos e muitos quilómetros de vela percorridos em terra. Os dois conheceram- -se em 2015, no Festival do Vento, em Aveiro. O primeiro andava pelo areal com o seu carro à vela e emprestou-o ao segundo que o deixaria de boca aberta com as suas manobras. Tornaram-se amigos e companheiros desportivos, para a prática.

 

Sem discriminação
É o mais importante dos acessórios desportivos, logo a seguir à vela, às luvas e capacete de protecção. “É precisa barba rija. Homens e mulheres de barba rija, não discriminamos!”, brincam os elementos da direcção da nova secção do NEL.

Na verdade, há já várias mulheres a experimentar e a velejar com maior perícia do que muitos homens, reconhecem. O desporto, normalmente, é praticado junto ao mar, mas entre Junho e Setembro, as praias estão cheias de veraneantes, pelo que o Pédevento refugiou-se no seu retiro estival na aldeia de São Bento, Porto de Mós.

Uma vez por mês, quem chega à localidade, vê, do outro lado do vale, não as velas de moinhos, mas um tipo de panos que seria de esperar apenas ver-se dentro de água. Contudo, o mar está muito longe do topo da Serra dos Candeeiros.

No antigo campo de futebol pelado já não se joga futebol, mas os velejadores do Pédevento encontraram ali uma nova casa, colocada à disposição pelo Clube Desportivo de São Bento, através do Núcleo de Espeleologia de Leiria.

Márcio Rafael, presidente do Clube Desportivo de São Bento, recorda com saudade os amigáveis jogos de solteiros contra casados onde disputou a bola com os amigos e está contente de poder ver o velho pelado com nova vida.

“Penso que também será uma maneira de trazer pessoas a visitar a freguesia e a sua beleza natural”, explica e adianta que, na aldeia, a vista das coloridas velas de barcos a acelerar no recinto desportivo, primeiro causou estranheza e depois perguntas. Muitas perguntas.

A aposta da secção, agora, é formar novos pilotos e captar mais jovens para a prática de carro à vela e, se possível, envolver a comunidade de São Bento, neste esforço. Para já, contam com o apoio do Clube Desportivo para, todos os segundos domingos de cada mês, organizarem uma sessão de treino – bootcamp – gratuita e aberta a todos (a próxima será no domingo, dia 9 de Setembro). 

Se, nas primeiras sessões, eram apenas quatro pilotos com três carros, agora já há gente a vir de Braga, Leiria, Lisboa e do Bombarral para se juntar ao Pédevento. David Allen sublinha que é  [LER_MAIS] necessário não deixar passar oportunidades, dando passos sólidos “para a divulgação e captação de praticantes”.

Queriam ficar em último, trouxeram a Prata
Há precisamente um ano, o Carro à Vela Portugal foi notícia em vários meios de comunicação nacionais e regionais, incluindo no JORNAL DE LEIRIA, por se comprometerem, após as vitórias de Portugal na Eurovisão da Canção e no Campeonato Europeu de Futebol 2016, a “ganhar, no mínimo”, o último lugar da participação no Europeu de Carro à Vela.

Era a primeira vez que Portugal iria participar e sem quaisquer apoios: os carros eram franceses e irlandeses, o apoio técnico era da Selecção Francesa, o seguro era da Federação Espanhola e tinham o apoio pessoal de Allan Watson, presidente da Federation of International Sand and Land Yachting e o olhar de curiosidade das outras selecções presentes.

Os novatos não alcançaram o último lugar, mas trouxeram para Portugal o “caneco de Prata” em resultados por selecções nacionais, ficando atrás da campeoníssima França e à frente de “pros”como a Inglaterra ou Irlanda.

Regressado a casa, o Carro à Vela Portugal constatou que precisava de uma entidade que lhe pudesse dar algum apoio institucional. Contactou alguns clubes da cidade do Lis e descobriu no NEL uma espécie de irmão gémeo.

“O NEL sempre foi um catalisador de vontade de fazer. Tal como no meio empresarial, não é o número de promotores que é importante, mas a intensidade e vontade de quem o está a fazer”, refere o presidente do NEL.

Luís Subtil Barreiro adianta que houve pronta anuência por parte das outras secções do clube e o nome até foi sugerido por si. Com todos os seus segundos sentidos, o nome Pédevento, caiu imediatamente no goto do Carro à Vela Portugal.

A visão dos responsáveis pelo NEL Pédevento, sublinham, não é ganhar medalhas ou engrandecer egos. “Este é um desporto de perícia, regras, cavalheirismo e alguma audácia”, diz Dário Ruivo.

Quando o tempo frio, a chuva e vento regressarem à costa atlântica, também o Pédevento se aventurará nos areais de Peniche e da Praia do Pedrógão, mas, por agora, os velejadores demoram-se no conforto do seu ninho de águia.

Jacinto Silva Duro
Redacção Jacinto Silva Duro jacinto.duro@jornaldeleiria.pt
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