Entrevista | José Ferreira: “Leiria continua a não ser uma entidade agregadora”

Sociedade

23 Agosto 2018

Entrevista | José Ferreira: “Leiria continua a não ser uma entidade agregadora”

O presidente da Escola Nacional de Bombeiros defende um novo modelo para o voluntariado.

Leia aqui a primeira parte da entrevista

Jorge Vala foi seu vereador. O aprendiz superou o mestre?
Não, ainda tem de provar mais.

Que balanço faz deste início de mandato?
Ainda é um bocado cedo. Afastei-me muito da política. Pago as quotas ao meu partido, porque não gosto de dever nada a ninguém. Há sempre muitas actividades todos os fins-desemana, mas há coisas mais importantes que o concelho precisa.

O que é urgente para o concelho?
O que vou dizer não se restringe a Porto de Mós. O mundo está num processo de transformação tão rápido que quando acordarmos vai ser demasiado tarde, porque o comboio já passou. Todo este processo da chamada indústria 4.0 e toda essa revolução que aí vem, que tem a ver com as relações laborais, com a questão de liderança de organizações, a sua adaptabilidade, o questionar permanente de que nada está consolidado, são áreas que têm muito a ver com os chamados recursos intangíveis da sociedade. Não há uma preocupação com isto. Olha-se muito para o umbigo e não vemos o que está a acontecer no mundo.

Que avaliação faz dos mandatos socialistas em Porto de Mós?
izeram-se algumas coisas que eram a continuidade daquilo que vinha de trás. Por exemplo, o parque verde era a continuidade de uma coisa que projectei há 20 anos. De fundo não consigo ver uma obra no concelho de Porto de Mós que fosse de uma iniciativa do mandato de João Salgueiro.

Concorda com a abertura da Base Aérea de Monte Real à aviação civil?
Acho ridículo Leiria andar a discutir a Base Aérea de Monte Real. Portugal tem três aeroportos internacionais. Vejam Berlim que tem um aeroporto que ainda não funciona  [LER_MAIS] e está feito há vários anos e Espanha que vendeu um aeroporto, para não falar no de Beja. Não concordo nada. Apostem numa boa linha do Oeste. Essa é viável e facilita a vida das pessoas.

E Leiria Capital Europeia da Cultura?
É uma ideia engraçada, mas temo que seja outra vez como Leiria Euro 2004. Leiria deveria envolver mais os municípios à sua volta e esse é um problema estrutural do distrito. Leiria continua a não ser uma entidade agregadora. O distrito tem características muito especiais e quando vivemos de costas voltadas uns para os outros não conseguimos ter dimensão. Leiria nunca se soube assumir como um concelho sede de distrito aglutinador e um factor de coesão em termos do território.. Se calhar vivemos numa zona extremamente individualista, mas é uma das fraquezas.

Percurso
Ser autarca? Jamais!

José Maria Ferreira, natural do Porto, 62 anos, é licenciado em Filosofia e foi professor do ensino secundário. Presidente da Câmara Municipal de Porto de Mós, entre 1994 e 2005, dirige a Escola Nacional de Bombeiros desde 2013. Aliás, a sua ligação aos bombeiros e à segurança começou há vários anos. Já foi vogal do Conselho Executivo da Liga dos Bombeiros Portugueses, onde integrou vários grupos de trabalho, com o Ministério da Administração Interna e Ministério da Saúde, foi presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Leiria e dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós. Chairman da European Fire Service College Association em 2017/2018, realizou vários cursos no Instituto da Defesa Nacional. “Neste momento sou mestrando em Liderança de Pessoas e Organizações na Academia Militar.” José Ferreira confessa que já não tinha “pachorra” para voltar a ser autarca. “A coisa que mais me chateava em estar na Câmara de Porto de Mós era organizar as festas de São Pedro. Preferia analisar dossiers para reparar uma estrada ou uma escola do que preocupar-me em gastar dinheiro para trazer artistas para dar uma gaitada e o pessoal beber umas cervejas.”
Elisabete Cruz
Redacção Elisabete Cruz elisabete.cruz@jornaldeleiria.pt
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