Novas tecnologias aproximam alunos e professores

Sociedade

10 Maio 2018

Novas tecnologias aproximam alunos e professores

A invasão do dia-a-dia pelas novas tecnologias está a obrigar a escola a adaptar-se a esta nova realidade. E se alguns professores ainda oferecem resistência, outros já a usam em contexto de aula. A motivação e o interesse dos alunos são inquestionáveis

A utilização de novas tecnologias nas salas de aula ainda está a dar os primeiros passos na generalidade das escolas portuguesas. Apesar de as gerações mais jovens terem um contacto mais intensivo com telemóveis e tablets, a utilização destes dispositivos está associada sobretudo a questões lúdicas e à comunicação entre pares.

Da parte dos professores, há quem a use para fins pedagógicos e há quem ainda resista a estas ferramentas, por desconhecimento ou desinteresse. Miguel Xavier, 36 anos, criou uma “escola virtual”, com os recursos gratuitos existentes na internet, para os seus alunos do 4.º ano do Colégio João de Deus, em Leiria, com o envolvimento das próprias crianças.

E a conclusão a que chegou é que aprendem com mais facilidade, já que as ferramentas que utilizam permitem “trabalhar os conteúdos de uma forma mais sólida”. Além de ter sido criada uma conta de email para cada um dos alunos, Miguel Xavier diz que tanto ele como o colega que também dá aulas ao 4.º ano disponibilizam vídeos para as crianças fazerem exercícios, por exemplo, e dão-lhes a possibilidade de esclarecer dúvidas através de mensagens.

Outra estratégia que está a ser utilizada pelos dois professores para motivar os alunos é desafiá-los a levarem os computadores portáteis que os pais já não utilizam, por exemplo, ou os tablets para a sala de aula.

Quem não tem, o Colégio João de Deus empresta. “Somos uma IPSS, pelo que temos crianças de todos os extractos sociais, mas não excluímos ninguém.”O professor do 1.º ciclo explica que o Colégio João de Deus está apetrechado com quadros interactivos em quase todas as salas de aula, facto que contribui para estimular os próprios docentes.

Contudo, tem consciência que nem todos usam as novas tecnologias em contexto pedagógico. Além de admitir que alguns têm receio de trabalhar com novas ferramentas por terem [LER_MAIS] consciência que as crianças têm mais facilidade do que eles, diz que “dá trabalho pôr um aluno a fazer um powerpoint”. Contudo, acredita que, “mais cedo ou mais tarde, todos vão ter de aceitar esta ideia”.

Equipamentos obsoletos

Pedro Biscaia, 62 anos, alerta para o facto de nem todas as escolas estarem munidas de condições para promover o uso das novas tecnologias em sala de aula, como sucede na Escola Secundária com 3.º Ciclo Afonso LopesVieira (ESALV), em Leiria, de que é director.

“Além de termos tecnologia e equipamentos quase obsoletos, todo o processamento da informação numa sala de aula, dita tradicional, é muito mais lento do que os recursos que eles têm em qualquer smartphone.”

“Há um gap [fosso] muito grande entre a sociedade que evoluiu em determinados sentidos e a escola que está parada”, afirma Pedro Biscaia. “Não temos meios nem recursos para acompanhar esta evolução. A cada dia que passa, mais se nota. ”Nos dois últimos anos lectivos, o orçamento para Informática foi zero e, há três anos, foi de 500 euros. “Até a nível administrativo, a antiguidade do material é tão grande que põe em risco a própria segurança dos documentos.”

O director da ESALV assume que estas circunstâncias contribuem para que exista um vazio entre professores e alunos, embora acredite que as coisas estão a mudar. “Mais cedo ou mais tarde, os tablets têm de entrar na sala de aula. Agora, em que moldes? Estarão a nossa arquitectura escolar ou tipo de mobiliário preparados para isso? Não.” A título ilustrativo, compara o sistema de ensinoa um autocarro, em que o professor vai à frente a guiar e os alunos vão atrás. “Continuamos a transmitir conteúdos quando o desafio é a resolução de problemas.”

Além destes constrangimentos, Pedro Biscaia considera que o facto de a classe docente da ESALV estar envelhecida (na casa dos 50 anos) não ajuda. “Temos uma geração de avós que ainda cuida dos pais, com pouca motivação e pouca crença nestes métodos pedagógicos”, afirma.

Recorda, por outro lado, que as carreiras estão congeladas há dez anos, pelo que as pessoas não se sentem motivadas. Mesmo assim, o director da ESALV diz que os telemóveis já estão a ser utilizados, com eficácia pedagógica, nas aulas de Física e Química e ainda de Economia.

“Diabolizar os telemóveis e as tecnologias é um erro. Agora, falta regular o uso adequado no contexto escolar”, alerta. “O uso abusivo da tecnologia que leva à alienação e à adicção pode ter efeitos nefastos na saúde, porque dá crises de abstinência.”

A este propósito, um estudo da OCDE, divulgado esta semana, conclui que oito em cada dez adolescentes portugueses dizem "sentir-se mal" senão estiverem ligados à internet.

Produzir conhecimento

Elsa do Rosário, 48 anos, professora bibliotecária da Escola Secundária Raul Proença, em Caldas da Rainha, admite que há alunos que estão sempre ligados à internet e até viciados, mas prefere enumerar as vantagens do uso das novas tecnologias ao serviço do ensino.

No caso deste estabelecimento de ensino, acredita que a aprovação de uma candidatura a biblioteca digital irá trazer inúmeros benefícios não só para os estudantes como para os professores.

A equipa da biblioteca está preparada para dar apoio aos docentes na preparação das aulas, através da utilização das tecnologias para produzir conhecimento. Criar documentos áudio ou vídeo são alguns exemplos deixados por Elsa do Rosário.

Na sua opinião, os professores são tão interessados pelas novas tecnologias como qualquer outra pessoa. “A diferença é que as rotinas da escola implicam muito trabalho”, justifica. “Ainda ontem [dia 2], estiveram aqui 19 professores de Português e de línguas a trabalhar em conjunto e a aprender a fazer documentos áudio”, afirma a professora bibliotecária da Raul Proença.

“Fizeram-no por interesse, porque não foi uma formação creditada.” Sim, porque, acrescenta,“os professores também têm computadores, telemóveis e smart TV”. “Os alunos estão à espera que estas coisas entrem na sala de aula, como o lápis ou a borracha. Entendem as tecnologias como o dia-a-dia, e nós não. É aí que está a discrepância”, defende Elsa do Rosário.

Para a professora de Português, as novas tecnologias são mais um recurso, entre muitos outros que existem na escola. “Haverá situações em que as teremos de usar e outras em que não.

Podem ajudar a motivar, o que não quer dizer que isso suceda sempre. ”A título de exemplo, a professora bibliotecária refere que os alunos da escola de Caldas da Rainha preferem ler livros no formato tradicional.

“O uso das tecnologias não tem que ver com idades, mas com interesses e motivações”, acredita. Agora, está certa que, apesar da sua utilização ser opcional, cada vez é mais obrigatória.

“Os documentos do Ministério da Educação implicam trabalhar com as novas tecnologias. Não vamos conseguir fugir delas. Se há coisa que está sempre a mudar é a Educação e nós sempre fomos flexíveis.”

Alunos youtubers

Mariana Mota, 15 anos, diz que no Colégio Conciliar de Maria Imaculada(CCMI), em Leiria, onde sempre estudou, todas as salas têm quadros interactivo se a maioria dos professores utiliza o moodle [plataforma digital], powerpoints e vídeos do youtube para explicar a matéria.

Já outros, na faixa etária entre os 50 e os 60, recusam-se porque “acham que é muito complicado e que não têm idade para isso”. Embora Mariana Mota considere que as novas tecnologias são importantes para transmitir conhecimento e para motivar os alunos, diz que se os professores forem “interactivos” essa ausência não é tão notada.

Detentora de um canal no youtube desde Dezembro de 2015, a estudante do CCMI acredita que os alunos estão mais bem preparados para utilizar ferramentas digitais. No entanto, acredita que a mentalidade pesa mais do que a idade.

Páris Serrano, 13 anos, também tem um canal no youtube, desde Julho do ano passado, em que conta as aventuras do Capitão Abelha, personagem que criou em banda desenhada e, depois, transpôs para a internet, através de vídeos.

O aluno do 7.º ano da EB 2,3 D. Dinis utiliza ainda o youtube fazer pesquisa para as aulas. Filho de dois docentes, diz que há dez anos talvez os professores dominassem melhor as novas tecnologias do que os alunos, mas não tem dúvida de que, hoje, a relação se inverteu.

“Nós, os mais novos, temos esse domínio, porque temos mais tempo e mais facilidade”, afirma Páris Serrano. A prova disso, exemplifica, é a quantidade de youtubers que existem na faixa etária entre os 10 e os 15 anos.

“As pessoas mais velhas não se interessam tanto por isso.” Já na escola, utilizam o moodle e alguns manuais têm códigos que dão acesso à Escola Virtual grátis. O problema maior, identifica, é mesmo a falta de recursos financeiros. “Se não há dinheiro para arranjar estores, quanto mais para comprar computadores”, observa.

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