005 - Licença para estudar em terra de Sua Majestade 005 - Licença para estudar em terra de Sua Majestade 005 - Licença para estudar em terra de Sua Majestade

Sociedade

11 Janeiro 2018

005 - Licença para estudar em terra de Sua Majestade

São cinco. Fizeram 18 anos há pouco e já vivem sozinhos num país distinto. Uns consideram que o curso que escolheram é melhor em Inglaterra e outros entendem que as oportunidades de trabalho depois da formação são bem maiores por lá.

Motivados pela experiência de um mundo novo, à procura de alcançar os seus objectivos e garantir a melhor formação na área que escolheram para seu futuro, vários jovens rumam todos os anos para diferentes países para prosseguirem os estudos superiores.

Inglaterra é um dos destinos que lidera as escolhas dos jovens portugueses e os leirienses não fogem à regra. O JORNAL DE LEIRIA falou com cinco estudantes caloiros em terras de Sua Majestade e foi perceber as suas motivações e as dificuldades sentidas a cerca de 2100 quilómetros de distância.

Saudades do “meu Portugal”
Maria João Saraiva está a tirar a licenciatura em Make-Up and Hair Design, com duração de três anos, na Universidade de Southampton Solent. “Decidi estudar fora não só pelas imensas oportunidades de trabalho que terei depois do curso, mas também pela mentalidade das pessoas, especialmente em Inglaterra. Têm a mente muito aberta e são muito mais interessadas por arte do que sucede em Portugal (o meu curso segue a vertente artística)”, confessa.

A jovem, apaixonada por caracterização, acrescenta que desde pequena teve a intenção de estudar fora. “Assim que descobri o ramo que queria seguir, o da maquilhagem e indústria criativa, fez ainda mais sentido a ideia de sair”, já que esta área não é muito explorada em Portugal, “nem algo a que as pessoas dêem muita importância, pois é visto como algo sem qualquer base académica”.

A viver num quarto em casa de um professor reformado paquistanês que a trata “como uma filha”, Maria João Saraiva admite que a “adaptação foi muito difícil”, não tendo ajudado o facto da decisão final da universidade ter sido feita “muito em cima da hora”.

“Mas assim que comecei a conhecer pessoas que tinham o mesmo interesse que eu, o da maquilhagem, tudo se tornou muito mais fácil e agradável”.

Antes de partir para terras de Sua Majestade, a estudante não se considerava “uma pessoa apegada a nada”. “Mas isso foi só até ir embora. Posta à prova, acabei por perceber que sou uma pessoa muito apegada ao meu Portugal. O que mais me custa é viver longe dos meus pais. É de quem sinto mais saudades, mas tento distrair-me ao máximo para não pensar nisso.”

Está a adorar o curso. “Temos não só aulas práticas como também partes mais académicas. Fazemos imensa pesquisa sobre movimentos de arte e artistas que influenciaram o mundo da maquilhagem. O curso está muito bem organizado de forma a que o nosso conhecimento não seja só o básico. Por estranho que pareça, do que mais gosto são os professores, pois podemos considerá-los como autênticos artistas.”

Segundo Maria João, “tudo conta nas aulas” e qualquer pensamento “é de alguma maneira válido para eles”. “Também nos pressionam muito para que possamos pensar fora dos ideais estipulados, o que acho fantástico.”

Um dos desafios está a ser a cadeira de fotografia. “Nunca trabalhei com luzes de estúdio e câmaras profissionais, mas por incrível que pareça está a ser uma das minhas cadeiras favoritas." O processo de ingresso foi “muito fácil”.

Maria João adianta que teve a ajuda da OK Estudante, o que foi “crucial na orientação de tudo o que estava relacionado com a candidatura”. “Acabei o secundário com média de 14 no curso de Artes, mas esta não foi muito importante para ditar a minha entrada na universidade. Em Inglaterra dão mais valor ao portfólio, ao teu trabalho prático, por isso, fiz questão de me esmerar nesse aspecto. Mostrei vários trabalhos de maquilhagem que já tinha feito, incluindo profissionais com quem já trabalhei.”

Para Maria João, a grande diferença entre Portugal e Inglaterra são “sem dúvida” as pessoas. “Sempre soube que éramos um povo caloroso, mas foi em Inglaterra que percebi o quão diferente os povos são. Os ingleses não são antipáticos, simplesmente gostam do seu espaço um bocadinho mais que nós. Outro aspecto é também a comida. Enquanto nós, portugueses, adoramos cozinhar e temos uma gastronomia muito própria os ingleses vivem das comidas pré-feique comem.”

A jovem admite manter-se em Inglaterra depois do curso, apesar de ainda se estar a habituar ao ligeiro “choque de culturas”. O seu objectivo é “trabalhar para marcas, a criar 'looks' e a inovar no que toca ao mundo da beleza”.

“Não é algo fácil de atingir mas acho que para alguém como eu que necessita de estar sempre a criar novas coisas, é o melhor caminho.”

Investigação no topo das prioridades
“Estudar fora foi sempre um sonho e quando chegou a hora de escolher descobri que com o curso que queria não só teria mais oportunidades de emprego em Inglaterra, mas também porque o tipo de ensino era mais eficiente e objectivo comparativamente com o de Portugal”, revela Carolina Amado Pereira, caloira da Universidade de Coventry.

Para entrar candidatou-se a cinco universidades, cujas médias diferem em cada instituição, e teve de realizar um exame de inglês e uma entrevista. A estudante considera que o curso de Ciências Biomédicas “é muito mais teórico em Portugal”, enquanto em Inglaterra, é “tudo muito mais prático, com sessões laboratoriais todas as semanas, trabalhos de pesquisa científica...”

“Enfim, preparam-nos para o mercado de trabalho desde o primeiro dia.” Inicialmente, a adaptação foi também “um bocado difícil”, uma vez que se assume como uma “pessoa muito ligada à família e amigos”.

Com o passar do tempo as coisas tornaram-se mais fáceis: “o ambiente da universidade é excelente, existem vários alunos internacionais que se encontram na mesma situação e demo-nos bem logo ao início”.

A jovem está a viver numa residência de estudantes. “Os quatro colegas ingleses são espectaculares e há sempre aquele fascínio de que estou a levar a cabo um projecto com que sonhava há algum tempo.” Para si, o mais difícil é mesmo estar longe da família. “Como vivemos numa aldeia global, graças às tecnologias esse obstáculo acaba por ser ligeiramente atenuado.”

O primeiro ano do curso está a ser “um bocado exigente, não só por ser um ano de adaptação, mas também porque as disciplinas são mais abrangentes”, assume, admitindo que teve possibilidade de “experimentar coisas incríveis”, que pensava só fazer no último ano. O que mais a está a apaixonar são as aulas laboratoriais.

Além da temperatura, Carolina Amado Pereira encontra diferenças na cultura e no método de ensino dos dois países. E quando finalizar a licenciatura, onde estará esta leiriense? “Vejo-me num hospital ou num centro de investigação, sem dúvida. A especialização será consoante o decorrer do curso.”

O sonho de estudar em Londres
Quando era pequeno brincava com a ideia de ir estudar para Londres, cidade por que tinha uma especial paixão, mesmo sem nunca ter visitado. Quando estava no 12.º ano, as contas às médias, as indefinições sobre se teria notas para Medicina ou se seria mesmo isso que queria começaram a pesar.

 [LER_MAIS] “Sou mais virado para a parte científica que é o tratamento e orientação do utente. Foi então que uma colega de turma disse que tinha ido a uma reunião da OK Estudante para ir para o estrangeiro, o que captou imediatamente o meu interesse, especialmente quando descobri que era financiado.”

Decidiu embarcar na aventura, assim que soube das vantagens em estudar no estrangeiro: “nomeadamente, o financiamento das propinas, um ganho de autonomia, um sistema de ensino diferente que permite ganhar experiência de trabalho enquanto se estuda e, acima de tudo, a qualidade de ensino numa das Top 45 universidades de Inglaterra e a oportunidade de estudar em inglês, o que só abrirá portas no futuro”.

Ciências Biomédicas foi a licenciatura que escolheu. “A Aston University em Birmingham, onde estou, tem algumas metas propostas pelo próprio Instituto de Ciências Biomédicas do país. Além disso, ainda me oferece um estágio de um ano, onde vou poder experimentar esta área e com sorte captar a atenção de alguns empregadores.”

Rodrigo Fernandes acredita também que conquistará mais financiamento para projectos em Inglaterra do que em Portugal. Confessando que é uma pessoa muito próxima do seu “círculo social e muito apaixonado pela cultura portuguesa”, afirma que só a ideia de sair foi-lhe “moendo os neurónios nos últimos meses” antes de se mudar.

Mora numa residencial de estudantes, num apartamento com seis pessoas, com quem partilha a cozinha. “A minha maior dificuldade é mesmo tratar da roupa”, admite. Quanto à comida, o jovem até gosta de cozinhas, mas sente falta de “ter as coisas feitas sem trabalho”. Por isso, a preguiça ganha mais vezes à ida para o fogão e o prato mais consumido acaba por ser a massa com atum.

Apesar das dificuldades, Rodrigo Fernandes salienta “a capacidade excelente que o ser humano tem de se modelar consoante o ambiente que o rodeia”. “O choque cultural nas primeiras semanas foi forte. Não tenho qualquer defeito a apontar a este povo. Quanto à cultura as diferenças até não são tantas como esperava, mas suponho que isso já seja consequência da globalização. O que mais me chocou foi a falta do cafezinho depois de almoço e os exorbitantes preços na comida, mas que é compensado pela significativamente diferença do salário mínimo deles.”

O jovem garante que está a “adorar” o curso. “É tudo o que gosto de estudar e por que sou apaixonado. Quanto ao grau de dificuldade confesso que não é tão difícil quanto estava à espera, mas creio que é por ser o primeiro ano, porque já avisaram que vai complicar.”

Rodrigo Fernandes acrescenta que Inglaterra é um país “extremamente diverso em termos de culturas”, pelo que “é possível encontrar qualquer nacionalidade em qualquer cantinho”.

Curiosamente, a pessoa de quem é mais próximo é uma moçambicana, com quem fala português. Além de estudar, o aluno tem trabalhado numa empresa de catering a servir em eventos ou em balcões de bares.

“Estou num contrato de zero horas, o que significa que escolho quantas horas quero trabalhar, quando quiser. Neste momento parei porque tenho exames.”

Segundo Rodrigo Fernandes, em Inglaterra a maioria dos alunos trabalha enquanto estuda, mas porque há tempo. “Em Portugal, os estudantes não têm tempo para trabalhar devido às cargas horárias e também não é um conceito muito “popular”. Mas, um currículo com mais experiência é melhor que um vazio”, salienta.

Estagiar com o melhor do mundo?
Football Studies é o curso que Fábio Lopes escolheu para concretizar uma licenciatura de três anos, com mais um de estágio, na Southampton Solent University. Estudar fora surgiu como uma “oportunidade de aprender” noutro país e também “por ser um curso pouco ou nada desenvolvido em Portugal”.

“Se tivesse ficado aí estaria numa área que não gostava e assim sempre posso estudar algo de que sempre gostei”, assume. Por outro lado, “as oportunidades de emprego aqui são completamente diferentes”.

O jovem revela que há estudantes que se formaram no seu curso e que estão a “trabalhar nos melhores clubes ingleses e estáveis, nada como em Portugal”.

Para Fábio Lopes, a adaptação “não foi fácil, mas também não foi nenhum bicho de sete cabeças”. O mais difícil foi mesmo chegar e ambientar-se sozinho, longe dos que o rodeavam diariamente, mas as redes sociais ajudam a matar as saudades.

“Estou a gostar muito do curso, pois dá mais ênfase à vertente prática, o que me agrada. A parte mais difícil diria que é o facto de ter de escrever de forma académica numa língua que não é a minha e que não domino como os nativos”, afiança, confessando que o que mais gosta da licenciatura é “da sabedoria dos professores” e “a forma como a passam para os alunos”.

Já o que menos aprecia é “o tempo que é 'forçado' a passar na biblioteca, de forma a completar os trabalhos requeridos”.

O Special One trabalha precisamente em Inglaterra. José Mourinho é actualmente o treinador do Manchester United e Fábio Lopes revela que ter oportunidade de trabalhar com um dos melhores do mundo é um objectivo. “Tudo depende das oportunidades e das notas com que terminar o curso.”

Apesar de ainda não ter uma ideia concreta sobre o que gostaria de fazer no futuro, o jovem de Leiria afirma gostar “da parte de treino e de como é possível impor determinadas ideias pessoais numa equipa”. Mas a parte de scouting e de trabalhar como olheiro são áreas que também lhe agradam.

Um produtor de filme à procura do estrelato
Sem saber, Francisco Caçador foi estudar produção de filme e televisão na Southampton Solent University, onde curiosamente viria a ‘tropeçar’ na sua congénere Maria João Saraiva. O jovem explica que foi para Inglaterra “à procura de um sítio onde conseguisse ter qualidade de ensino e saída profissional após o fim do curso”.

Para si, nesta área, “o mercado inglês “é bastante mais desenvolvido” do que o português. Tal como Maria João, o estudante recorreu à OK Estudante para tratar do processo de candidatura. “Simplesmente tratei de arranjar os papéis necessários e, além da média, escolher a universidade que estivesse bem referenciada na área que segui e que ficasse numa cidade cujo custo de vida fosse suportável.”

Os primeiros tempos foram “bastante complicados”. “Não temos ninguém íntimo com quem estar no nosso dia-a-dia e enquanto não temos trabalho nem aulas parece que o tempo está parado. E quando o tempo demora a passar começa-se a pensar em tudo o que ficou para trás, o que estamos ‘a perder’... É difícil, especialmente para quem é muito ligado à família e aos amigos”, admite. Viver sozinho pela primeira vez é um sentimento “estranho”.

“É um salto para uma realidade diferente. Há meia dúzia de meses estava em casa dos meus pais e agora tenho uma renda para pagar. O mais difícil é organizar-me. Saber que tenho até dia x para pagar isto e aquilo, ter que assinar contratos de telefone, abrir conta no banco… Sou muito desorganizado e do nada tinha à minha responsabilidade vários assuntos todos importantes e todos a ter que se tratar ao mesmo tempo”, diz, ao confessar que é “preciso muita força de vontade para aguentar a distância”, mesmo falando com a família quase diariamente.

A partilhar uma casa particular com outros três portugueses, Francisco já arranjou trabalho a entregar comida e outro no estádio a vender comida e bebidas. Quanto ao curso, está a “gostar muito”, porque é “bastante prático, os professores são muito acessíveis e estão sempre prontos a ajudar”.

O estudante acrescenta que a escola “oferece condições espectaculares, ao nível de instalações e de equipamento”.

As diferenças entre os dois países “são muitas”, mas, sobretudo em Londres, “as pessoas são muito despreocupadas e vivem muito tudo”. “Na altura do Natal, toda a gente desejava ‘Bom Natal’ a quem quer que fosse e os bares e as lojas estavam cheios. É impossível não ficar contagiado com o positivismo da cidade”, afirma.

Também a multiculturalidade da universidade é “enriquecedora”. “Fica-se a conhecer vários pedacinhos do mundo só de conviver com as pessoas.”

Elisabete Cruz
Redacção Elisabete Cruz elisabete.cruz@jornaldeleiria.pt
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