Sofia Lisboa: "Tornei-me activista porque só conhecemos realmente uma situação quando nos acontece"

Gente & Lustre

15 Outubro 2017

Sofia Lisboa: "Tornei-me activista porque só conhecemos realmente uma situação quando nos acontece"

Na Impressão Digital desta semana, a embaixadora do projecto Leiria Tem Saúde.

Quem é que merece um bocadinho de respeito e não tem?
As pessoas com mobilidade reduzida ou qualquer tipo de deficiência.

A quem é que a Sofia nunca se importa de emprestar a voz?
A qualquer causa social, que vise ajudar quem precisa. E contra todo e qualquer caso de injustiça.

Como está a ser a vida de embaixadora? Muitos canapés?
Neste caso ser embaixadora é dar a cara a um projecto que "é a minha cara"! Depois de ter lutado contra a leucemia e continuar a lutar com os efeitos (e danos colaterais) decidi dedicar-me a promover a saúde.

Qual é exactamente o papel da embaixadora do projecto Leiria Tem Saúde?
É um projecto da Câmara e parceiros no qual eu sou voluntária fazendo a ligação entre ambos e ajudando a criar eventos e rastreios, para toda a população do concelho, de forma gratuita.

E Leiria? Tem saúde?
Penso que vai tendo cada vez mais, pelo menos há mais informação e como o Leiria Tem Saúde se desloca às freguesias permite que a população que não pode deslocar-se tenha acesso aos rastreios.

Que doença é mais urgente tratar na cidade?
Como em todas as cidades acho que devemos curar um pouco a falta de civismo, mas sobretudo a desinformação. As pessoas não estão preparadas para o que aí vem. Hoje em dia 1 em cada 3 pessoas tem cancro. Daqui a 10 anos vão ser 3 em cada 4. Não quero espalhar o pânico porque felizmente os profissionais de saúde no nosso País são dos melhores do mundo, e com certeza a maioria dos doentes vão sobreviver à doença, mas muita coisa tem de mudar...

Na rua ainda a reconhecem como a Sofia dos Silence 4?
Sim, às vezes, mas também como embaixadora do Leiria Tem Saúde. Digamos que há sempre a frase "a sua cara não me é estranha".

Também faz voluntariado na associação Colina do Castelo.
Ultimamente não tenho sido muito assídua, mas adoro. A Colina do Castelo ajuda famílias carenciadas e faz um trabalho fantástico. 

E dá palestras nas escolas.
Tem sido outra paixão. Falo um pouco de mim, dos Silence 4, do cancro, do meu livro, mas o grande objectivo, que é o lema das palestras, é "tratar o nosso corpo como um templo". Utilizo a linguagem deles sem apontar dedos nem com falsa moralidade mas explicando que perante as estatísticas ainda podemos tentar prevenir o cancro ou outras doenças. Por fim falo na importância de ser dador de sangue e medula e desmistifico os medos que todos eles têm e que não passam mesmo de mitos.

Tornou-se uma activista? 
Tornei-me activista porque só conhecemos realmente uma situação quando nos acontece a nós, mas apercebemo-nos que muitos já passaram e muitos vão ainda passar por isso. E se não falarmos aos que têm aquilo que chamo de ignorância abençoada, mas têm o poder de mudar leis e situações de injustiças, as coisas não vão mudar.

 [LER_MAIS] 

As novas gerações de adolescentes, nomeadamente em Leiria, conhecem a história dos Silence 4, têm noção do que a banda conquistou no final dos anos 90?
Quase todos conhecem a banda e as músicas, mas é normal não se aperceberem do que conquistámos naquela época. Com as novas tecnologias é mais fácil ter acesso a músicas de bandas totalmente desconhecidas e de qualquer canto do mundo.

Na época custou-lhe passar dos pequenos bares para os grandes concertos?
Não custou muito porque éramos uns miúdos e estávamos literalmente a crescer com o sucesso da banda. Foi sobretudo muito rápido.

E a televisão, as entrevistas, a pressão mediática?
Era assustador, mas felizmente o David [Fonseca] dava a maioria das entrevistas porque parecia que tinha nascido para isso. E nós, os outros elementos da banda, disfarçadamente escapávamo-nos.

Alguma vez a fama se tornou inconveniente?
Para mim muito poucas vezes. Éramos sempre muito acarinhados.

E voltar aos palcos em 2014?
Foi um sonho muito improvável concretizado. Foi um verdadeiro renascer e uma celebração da vida com uma equipa como sempre maravilhosa.

Actualmente quem é que tem o privilégio de ouvir a Sofia cantar?
As pessoas paradas no trânsito quando estou no meu carro! E às vezes em eventos solidários. Profissionalmente não podendo ter cachê não posso juntar uma banda, um projecto e pedir aos músicos para não receberem também. E, claro, não acho justo também não receber pelo meu trabalho.

E que canções mais rodam lá em casa ou no carro?
A minha grande paixão é soul, mas ainda sou caloira, ando à descoberta, gosto de quase tudo.

Ainda se lembra do último CD que comprou?
Sou aquela pessoa que só ouve rádio e CD's originais. Já não compro tantos como queria mas o último foi Kuzola, da Lúcia de Carvalho, com quem fiz um dueto quando cantei em Paris no Hotel de Ville.

Quando não está em missão com o fato de embaixadora, nem a ouvir música, como é que ocupa o tempo?
A planear a minha missão de activista, a informar sobre os seus direitos outros sobreviventes que me contactam através da minha página ou muitas vezes em casa no sofá a deprimir por não poder trabalhar.

À parte do cover A Little Respect, que vos popularizou, que canção melhor representa os Silence 4?
Sem dúvida o Borrow. Porque foi a música que provou sem sombra de dúvida que o sucesso alcançado com o Little Respect não aconteceu por ser uma música já conhecida, mas sim porque tínhamos qualidade para enriquecer o mundo da música.

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