Fazer como os outros

Editorial

26 Novembro 2015

Fazer como os outros

Muito se tem dito sobre o problema da degradação a que se assiste na maioria dos centros históricos das nossas cidades, mas medidas concretas para o resolver, inerentes a um pensamento mais reflectido e estratégico, têm sido raras

A maioria dessas zonas continua, assim, a olhar envergonhada para lá das fronteiras portuguesas, onde os centros históricos estão preservados, têm dinâmica e são a grande alma da urbanidade.

O caminho que percorreram foi, naturalmente, distinto, havendo os que nunca perderam a sua vida, os que renasceram após períodos de abandono e degradação, e até os que foram totalmente reconstruidos a partir das cinzas da guerra.

No entanto, olhando para a nossa realidade, e focando-nos em Leiria, talvez fosse interessante perceber como é que em algumas cidades, zonas anteriormente degradadas e sem interesse se transformaram, tornando-se dinâmicas, procuradas e com vida. Atractivas quer para habitar quer para o turismo.

Os exemplos são muitos, alguns em Portugal, bastando olhar para o que está a acontecer no centro do Porto ou em algumas zonas de Lisboa e Braga, onde hoje todos procuram viver em locais anteriormente esquecidos e de onde se fugia.

Mas olhando para fora, é incontornável, por exemplo, falar do Soho, em Nova Iorque, ou de East End, em Londres, zonas que, em épocas distintas, se afirmaram depois da degradação pós-industrial.

À frente, a abrir caminho, apareceram os artistas, ocupando antigos edifícios industriais e comerciais, pouco importados com a (má) fama dessas zonas ou com a degradação que apresentavam. Viam além disso.

Percebiam as potencialidades e a oportunidade de usufruir de bons espaços a preços reduzidos. Atrás dos artistas e da dinâmica por eles criada, foram aparecendo outras pessoas, mais e cada vez mais.

Surgiram restaurantes, bares, galerias. Vida onde antes só havia tijolo e ferro. Por último os especuladores imobiliários e as gentes mais endinheiradas, à procura de comprar o trendy, a moda, o estar in.

Leiria tem uma escola de Artes a 50 quilómetros de onde saem todos os anos cerca de 300 alunos. Tem centena e meia de edifícios devolutos no seu centro histórico. O casamento não parece muito complicado e, se não se dá espontaneamente, por que não promovê-lo?

Certamente que muitos dos proprietários de imóveis não utilizados não se importariam de cedê-los por dois ou três anos a troco de isenções fiscais. Também não parece descabido pensar que se Leiria tivesse para oferecer espaços a preço simbólico, a cidade seria procurada por jovens artistas em início de carreira.

A partir daí, pode-se imaginar que pudesse acontecer em Leiria o mesmo que noutras cidades. Ou seja, que o movimento e a dinâmica criados pela presença do meio artístico pudesse estimular negócios, recuperação de imóveis e outra vida no seu centro histórico. Se funcionou noutros locais...

João Nazário
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