“Os portugueses são mais vanguardistas no humor do que os brasileiros” “Os portugueses são mais vanguardistas no humor do que os brasileiros”

Cultura

22 Outubro 2015

“Os portugueses são mais vanguardistas no humor do que os brasileiros”

Gregório Duvivier vai estar, no dia 29, na Arquivo Livraria, em Leiria, às 18:30 horas, para um "bate-papo" e a seguir vai dar espectáculo no XX Acaso

O actor e humorista brasileiro, Gregório Duvivier, é conhecido entre nós pelo seu papel no “Porta dos Fundos” que passa em canal próprio do Youtube e no canal de cabo Fox.

No dia 29, depois de passar pela Arquivo Livraria, segue para o Teatro José Lúcio da Silva onde, às 21:30 horas, dará corpo à peça Uma noite na Lua, no âmbito do XX Acaso Festival de Teatro.

Antes, porém, no dia 23, fará um stand up poético no Folio - Festival Internacional de Literatura de Óbidos e, a 24, dará um ar de sua graça no Centro Cultural e de Congressos de Caldas da Rainha, às 21:30 horas. Em Setembro, deu a entrevista ao JORNAL DE LEIRIA, que aqui recordamos.

No dia 29 de Outubro, vai levar a peça Uma noite na Lua, ao Acaso a Leiria. Vai ser uma digressão “fora do circuito”.
Sim e isso é muito bacana. Não só porque não conheço Portugal, como sou um apaixonado por essa peça. Estou há três anos em cartaz no Brasil com ela e já viajei por todo o país a representá-la. O público tem tido uma receptividade muito boa. Uma noite na Lua tem algumas coisas de stand-up, uma vez que é um homem, sozinho, no palco falando, pensando… Mas é uma comédia dramática. Conheci, há tempos, um jovem brasileiro que nunca tinha visto outro teatro além do stand-up. No final, veio ter comigo e disse: “nossa! Você faz um stand-up triste.” Para ele tudo é stand-up e há muita gente assim no Brasil, que pensa que teatro é stand-up. É uma peça que também é clássica, que fala de amor, de um homem só, que foi abandonado pela mulher e pelas ideias. Ele tem de escrever uma peça e entregá-la na manhã seguinte e não tem ideias. Está em casa, sem ideias, sem peça, sem a mulher da vida dele.

A tristeza do comediante, neste caso, tem semelhanças com Man on the Moon e Andy Kaufman…
Kaufman é uma comédia triste. Acho bacana a gente confundir e chamar a peça de Homem na Lua. Realmente, tem a ver com Andy Kaufman e a tristeza do comediante mas penso que o João Falcão, que escreveu a peça, se inspirou mais em Uma noite na ópera, dos Irmãos Marx. É uma peça que tem muito humor do desespero, do trágico… e o actor representa todos os sentimentos em palco. Passa pelo desespero, porque vê que não é assim tão fácil fazê-lo, e tem um momento de paixão e saudades da mulher. É uma noite inteira que se passa apenas numa hora de espectáculo. Tem muito a ver com o humor português que é mais sério, do que o brasileiro, no melhor sentido. Os vossos humoristas são mais políticos e mais poéticos. Além dessas duas qualidades, não está escrito no rosto do comediante que ele está a fazer humor. No Brasil, o humor é botar uma peruca e pintar o rosto com cores muito fortes, interpretando tudo muitos tons acima. Os portugueses são mais vanguardistas no humor do que os brasileiros.

Os portugueses são mais os Monty Python e os brasileiros serão mais os Irmãos Marx?
Os brasileiros serão mais os Três Patetas [Os Três Estarolas – The Three Stooges]. Vocês têm muita influência do humor britânico. Fazem a sério o humor. Passei a minha vida procurando coisas portuguesas que a gente amava lá na nossa turma de comediantes. Quando descobrimos o Gato Fedorento, foi uma grande revolução, adorámos o Bruno Aleixo e o Bruno Nogueira, que conheci mais recentemente.

No tempo em que está em Portugal para apresentar o seu espectáculo vai também apresentar um livro. Além de humorista, é também escritor e poeta e, agora, vai lançar um livro de crónicas pela editora Tinta da China…
É uma editora que adoro, que tem o Ricardo Araújo Pereira e toda a gente boa do humor. São livros lindos e bem editados. O título será [Caviar é uma Ova] e será uma reunião de todas as minhas crónicas. Escrevo há dois anos na Folha de São Paulo, mas não é aquele género clássico de crónica, como a de Rúben Braga e de outros autores brasileiros. Não é um facto do dia-a-dia, uma coisa fechada ou uma epifania apolítica. As minhas crónicas são variadas. Há textos com diálogos, textos poéticos e políticos. De modo geral, falo muito do Brasil, e disseram-me que os portugueses se interessam muito com o que se passa no meu país. Como os meus textos são como política para principiantes, porque eu também o sou, será muito acessível para os leitores portugueses.

As tensões vividas, neste momento, no Brasil são objecto de grande curiosidade deste lado do Atlântico.
O Mensalão, o Petrolão e a presidente Dilma estão bem presentes nos meios brasileiros. No livro falo da corrupção, dos escândalos e da indústria dos escândalos que está por detrás. É legítimo divulgar os escândalos, mas há uma oposição que se aproveita deles e o pior é que a oposição consegue ser ainda mais corrupta… Esse é o grande problema do Brasil. Quem quer tirar o PT do poder, que se corrompeu nestes anos de governo, são pessoas que ainda são mais corruptas que pertencem a partidos como o PSDB. Os dados estatísticos mostram os milhões de reais roubados por esse partido… o PSDB bateu um recorde no Brasil. Retirar o PT do governo e trocá-lo pelo PSDB é como querer limpar o chão sujo com lodo. É um absurdo. Se é para acabar com a corrupção que seja com pessoas novas ou com um passado limpo.

Perfil
Man on the Moon?

Gregório Duvivier tem 29 anos, nasceu e cresceu no Rio de Janeiro. É um dos mais conhecidos humoristas brasileiros da actualidade sendo que, em Portugal, grande parte da fama se deve à sua participação na série humorística Porta dos Fundos.

Duvivier veio do Brasil para promover uma digressão, “fora do circuito normal” com a peça Uma noite na Lua, que passa por Leiria a 29 de Outubro, no Acaso. Venceu o Prémio APTR com esta peça e é considerado no Brasil um dos mais extraordinários talentos revelados nos últimos anos.

Uma noite na lua é a comédia que fala de um escritor sem um único título publicado que luta para, enfim, terminar uma peça sobre um homem solitário. A personagem intensa processa as suas ideias em cima de um palco e vive atormentado pela recordação de Berenice, a sua ex-mulher.
Clique para ver um trecho de Uma noite na Lua


 

Jacinto Silva Duro
Redacção Jacinto Silva Duro jacinto.duro@jornaldeleiria.pt
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