PNSAC: O guardião da natureza que nasceu há 40 anos

Sociedade

02 Maio 2019

PNSAC: O guardião da natureza que nasceu há 40 anos

Quarenta anos após a criação do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) recuperamos algumas estórias. Umas envolvem tiros e pneus furados, outras polícia à paisana e um casal de rabirruivos.

A ideia partiu dos autarcas, que viam na criação de uma área protegida uma forma de salvaguardar e valorizar o rico património natural das zonas serranas dos seus concelhos. Assim, a 4 de Maio de 1979, há precisamente 40 anos, nasceu, no papel, o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC).

Pela voz de alguns dos protagonistas destas quatro décadas de história, o JORNAL DE LEIRIA recorda momentos marcantes, como a descoberta das pegadas de dinossauro da Pedreira do Galinha e de Vale de Meios e da Praia Jurássica de São Bento, consideradas de valor mundial.

Relembramos também episódios que ilustram a conflitualidade que, ao longo de anos, marcou a relação entre a direcção do parque e as populações locais e autarquias. Há histórias que envolvem tiros, pneus furados, polícia à paisana ou um casal de rabirruivos.

Ainda hoje Maria João Botelho, arquitecta paisagista e engenheira agrónoma, recorda o entusiasmo com que aceitou o convite para liderar a primeira direcção do PNSAC, que assumiu funções em 1986, marcando o início da actividade desta área protegia, criada, no papel, sete anos antes.

Ia “começar do zero”. Havia que formar equipas e concretizar o plano de ordenamento, que “traduzisse uma estratégia para o parque”. Era também necessário encontrar soluções para alguns dos principais problemas ambientais, como as pedreiras, a caça e a exploração agro-pecuária, que compatibilizassem essas actividades com a conservação da natureza. E foi aqui que surgiram os principais conflitos.

De um lado, os agentes económicos e as populações locais, habituadas a explorar os recursos que a serra lhes oferecia sem grandes constrangimentos. Do outro, o parque natural, representado pelos seus dirigentes e técnicos, que tinham como missão impor regras nessa exploração.

 [LER_MAIS] “Éramos considerados um obstáculo ao desenvolvimento”, diz a antiga directora, que recorda os “tempos conturbados” relacionados com a regulamentação das pedreiras e a definição de uma política para o sector, que implicava “naturalmente” restrições “incompreendidas” pelos exploradores e, por vezes, pelos autarcas. “Foi um trabalho árduo, mas com bons resultados, quer para o parque quer para os empresários e municípios”, afirma Maria João Botelho.

Esse trabalho implicou, no entanto, muitas 'dores de parto' e alguns episódios, um tanto ou quanto dramáticos, como os tiros que, certa noite, foram disparados contra a sede do parque, em Rio Maior. Uma das viaturas da instituição ficou também com os pneus vazios. Um protesto que “não foi contra os vigilantes, os técnicos ou os dirigentes, mas contra a nova política”.

Um planalto que parecia a Lua

Nesses tempos, em que se tentava “equilibrar” os vários interesses, José Ferreira era presidente da Câmara de Porto de Mós, concelho que tem uma grande parte do seu território abrangido pelo PNSAC. “Houve um secretário de Estado que disse que os parques naturais iam ser o FEF [Fundo de Equilíbrio Financeiro] verde dos municípios. Não passou de um slogan. Não se via o retorno directo, que equilibrasse as imposições a que o parque obrigava, e isso gerava tensão”, alega.

No entender daquele antigo autarca, essa “conflitualidade permanente” devia-se, em grande parte, “à forma como se faziam as coisas”. “Havia decisões tomadas na sede [do PNSAC] ou em Lisboa sem que os técnicos viessem ao local verificar se determinada classificação se justificava ou não”, sustenta, reconhecendo, no entanto, que o balanço “é francamente positivo”.

A título de exemplo recorda a intervenção feita pelo PNSAC na recuperação de pedreiras abandonadas e no controlo da exploração de inertes. “Há 25 anos, o planalto entre a Mendiga e São Bento parecia a Lua, tantas eram as crateras abertas. Hoje, graças à recuperação ambiental, o impacto é incomparavelmente menor”.

José Ferreira lembra ainda a “guerra” pela legalização das suiniculturas, que levou à redução de efectivos das explorações e à imposição de sistemas de controlo ambiental, ou à regulamentação da caça.

É em relação a esta última área que o ex-autarca recorda um dos episódios “mais sensíveis” que vivenciou. Aconteceu durante uma reunião no auditório em Porto de Mós para discutir “as questões da caça”, com a presença de um técnico do parque, “cientificamente muito competente”, mas com poucos dotes de oratória.

“Os ânimos exaltaram-se. A cerca altura, uma pessoa da assistência pôs a mão ao bolso, dando a entender que tinha uma arma. Temeu-se o pior, mas conseguimos acalmar os ânimos”, recorda.

Este não foi caso único de ameaça aos representantes do parque. José Alho, que por duas vezes, assumiu o cargo do director, conta que “houve muitas cartas, umas anónimas outras identificadas, com ameaças mais ou menos veladas”.

Em 2007, quando se iniciou a discussão pública do plano de ordenamento do parque, houve sessões públicas com “muita tensão”, em que, por precaução, entre a assistência estiveram elementos das forças de segurança ‘à paisana'. No entanto, “nunca houve nenhuma situação que justificasse intervenção”, conta o antigo director do PNSAC, que recorda um outro episódio, este envolvendo o sector das pedreiras de calçada.

“Durante uma série de dias, os donos de uma pedreira, que achavam que não podiam continuar a laborar, mandavam os funcionários para a frente da sede do parque. Chegavam de manhã e faziam o seu turno ali, em manifestação. Mas não houve ameaças à integridade física”.

Bem mais “carinhoso” é o episódio recordado por Olímpio Martins, que, desde 1988, integra a equipa de espeleologia do parque. A história que conta aconteceu durante a abertura do poço artificial, onde foi construída a entrada para o Centro de Interpretação Subterrâneo do Algar do Pena, que obrigou ao uso de explosivos.

“Quando começámos a desmontar a rocha, deparámo-nos com um casal de rabirruivos que estava a constituir família. A solução foi retirar o ninho em dias de explosão, normalmente duas vezes por semana, e voltar a colocá-lo no sítio, findo os trabalhos. Não só não rejeitaram o ninho, como fizeram uma segunda postura”.

Património “de valor mundial”

A história do parque faz-se também de projectos e investimentos que procuraram valorizar o património existente, através da criação de infraestruturas, do apoio a trabalhos de investigação e da elaboração de documentos estratégicos.

Os vários intervenientes ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA, apontam, por exemplo, a criação de estruturas de apoio ao turismo, como centros de interpretação, parques de campismo e de caravanismo, um centro de desporto de ar livre, ou realização de eventos como a semana da pedra, o festival dos ventos ou congressos científicos.

A criação da ADSAICA, a primeira associação de desenvolvimento local nascida numa área protegida, que permitiu a concretização de muitos projectos apoiados por fundos comunitários e a constituição de equipas de sapadores florestais, é outro dos momentos marcantes destacados, numa lista que inevitavelmente deve incluir a descoberta das pegadas de dinossauros da Serra de Aire (Ourém) e de Vale de Meios (Santarém) e da Praia Jurássica de São Bento (Porto de Mós).

É, aliás, por este património de “valor mundial, pela raridade e importância científica”, que passa um dos próximos projectos a concretizar no PNSAC, revela Maria de Jesus Fernandes, directora do Departamento da Conservação da Natureza e das Florestas de Lisboa e Vale do Tejo, no qual está integrada esta área protegida.

A par da valorização e da melhoria das condições de visitação dessas jazidas, a dirigente aponta como um dos grandes desafios do PNSAC a questão do ordenamento, com o “ajustamento” dos instrumentos em vigor à nova lei de bases do sector.

Há ainda a continuidade da aposta no conhecimento científico, em áreas como a biologia subterrânea ou a paleontologia, não só na Praia Jurássica como em alguns algares. “O trabalho de conhecimento das cavidades, numa região cárcica, nunca estará completo. Há sempre novas cavidades a aparecer. Hoje estimamos que aqui existam mais de duas mil, mas haverá muitas mais”, frisa Olímpio Martins, sublinhando que, “quanto melhor se conhecer o património, melhor se pode valorizar e gerir”.

Maria de Jesus Fernandes acrescenta uma outra vertente – a promoção -, que no seu entender implica “um trabalho articulado” e um “esforço de coesão”, envolvendo o PNSAC, os municípios e a população. “Não estamos sempre de acordo e não olhamos os problemas da mesma forma. Mas todos teremos a ganhar se nos unirmos em torno de uma estratégia unificadora e de coesão do território”.

Maria Anabela Silva
Redacção Maria Anabela Silva anabela.silva@jornaldeleiria.pt
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