A televisão é uma parte indissociavel da cultura moderna. Dependemos em grande parte dela para tomar contacto com informação, entretenimento, cultura, desporto ou música. A maior parte das nossas horas de descanso são passadas a olhar para a caixa que mudou o Mundo. É fácil cair no hábito de dizer que os quatro canais nacionais de televisão em sinal aberto nada têm para oferecer além de notícias, concursos, talk shows sobre desgraçadinhos e novelas que não exercitam os neurónios. Mas não é bem assim. Sim, confirma-se: há vida além das novelas e do restante lixo televisivo. “Fossem os responsáveis pelas televisões menos agressivos na conquista de audiências e teríamos, decerto, na televisão um aliado poderoso como fonte de informação e de formação humanista. Se todos temos acesso à televisão nem todos podemos gerir os seus conteúdos”, resume o psicólogo João Lázaro. Como numa livraria ou num supermercado, é preciso saber escolher. É preciso sentido crítico para ver televisão. Por exemplo, nas últimas semanas, além de séries premiadas, a televisão passou documentários, filmes de grandes mestres como Bergman e programas sérios de debate e de grande informação. “Passo 14 horas por dia em frente à televisão e faço-o porque ela encurta distâncias. Permitiu-me até, noutra época, aprender inglês sozinho”, diz Miguel Sousa, intérprete. A televisão ainda retém muito potencial. Devido à sua capacidade de criar imagens fortes, é um bom meio de partilha de vários tipos de experiências culturais e vivências. O pequeno ecrã pode dar a conhecer livros, cinema, escritores, músicos, homens de ciência, matemáticos, artistas, políticos, filósofos e líderes espirituais. Além disso, pode servir como espaço universal de debate – veja-se o caso do programa Prós e Contras, da RTP, líder de audiências – ou de divulgação do que se faz em prol do Ambiente, como acontece no programa Biosfera, da RTP2. Fica um conselho: esforce-se por criar gosto, espírito crítico e estabeleça, em família, as suas próprias tradições televisivas. Lembra--se quando a família se reunia à volta do ecrã a preto e branco para ver a Bota Botilde ou o Bem Amado? Se se lembra, sabe do que estamos a falar. Se não, então isto é especialmente para si: aproveite as maratonas de filmes clássicos, de comédia ou transmissões de Jogos Olímpicos para ver televisão com os mais novos, incutindo-lhes o gosto por algo mais que histórias mal alinhavadas e acéfalas de vampiros adolescentes com problemas de caspa e pé-de-atleta. A importância da televisão e o controlo dos pais é crucial quando se trata de crianças pequenas, ainda na fase da formação da personalidade. Os programas para os mais novos, como os da RTP 2 (Zig-Zag), podem ajudá-los a perceber e o que é ético e moralmente aceite. Neste contexto, faz sentido perguntar aos programadores dos canais públicos por que não voltar a passar a Rua Sésamo em versão portuguesa? Passadas duas décadas, para Carlos Pinto Coelho, director de programas da RTP nos anos 80, esse ainda é o programa de que tem maior orgulho. “Foi um grande esforço para criar algo de qualidade”, recorda e lembra que, para que a Rua Sésamo fosse para o ar, cada um dos programas contou com a participação da companhia de Jim Henson, dona do formato, de pais, professores e pedo-psicólogos. Só é possível ver a Rua Sésamo portuguesa no Youtube, contudo, é rara a criança no ensino básico que não conheça as aventuras do Conde de Contar, do Monstro das Bolachas, do Egas e do Becas, ou do Popas e que não saiba os primeiros acordes do genérico. O sol nasceu, como está lindo o céu; Lá vou eu, vem tu daí também; Aprender como se vai até à Rua Sésamo... Não obstante a qualidade que se pode conseguir neste tipo de programas, Teresa Paixão, responsável pela programação infantil da RTP adverte os pais para o facto de não se poder deixar que seja a televisão a educar os filhos. “Mesmo quando se é cuidadoso, pode-se passar mensagens que os pais não queiram. Todos temos ideias diferentes sobre educação. Se os pais quiserem dizer aos filhos que batam em quem lhes bata, é lá com eles. Isso nós não dizemos. Apelamos à tolerância.” Mezzo, Dicovery Channel, National Geographic Channel, são algumas das nossas sugestões na televisão por cabo. Mas, tal como na televisão generalista, o que interessa é ter sentido crítico. Veja televisão. Eduque-se.
Texto: JSD
|