O meu conselho é que se case. Se encontrar uma boa esposa, será feliz; se encontrar uma má esposa, tornar-se-á filósofo
Sócrates

Login
Username
Password
Registar
Esqueci a Password
Edição 1365
Distrito de Leiria
Artigos em destaque

"Em Portugal trabalha-se pouco", Augusto Medina, presidente da Sociedade Portuguesa de Inovação

"Vivemos acima das nossas posses e isso não é sustentável", defende o engenheiro.

Um relatório recente do FMI alerta que se não forem tomadas medidas adicionais de consolidação orçamental o défice público subirá este ano e a dívida pública chegará muito perto dos 100% do PIB em apenas quatro anos. Como comenta?
A situação é muito má. De facto, vivemos acima das nossas posses e isso não é sustentável. É preciso gastar menos e produzir mais.

O que considera ser mais urgente mudar em Portugal?

É preciso sermos mais organizados e trabalharmos mais. Acho que se trabalha pouco, de forma geral. Temos de trabalhar mais e melhor. Quando se vai à China, por exemplo, vê-se que as pessoas têm um incentivo muito grande, em termos daquilo que pode ser a melhoria das suas condições de vida, para fazerem trabalho adicional.

Em Portugal não existe uma cultura de incentivo do trabalho?

Com toda a franqueza acho que não. Aqui não se trabalha muito. Se houver dificuldades que tornem a situação das pessoas mais complicada talvez haja esse incentivo. Não havendo, vamos andando. De modo geral nem se vive mal.

O Estado, através da Parpública, deu orientações às empresas participadas para que os vencimentos dos gestores não sejam actualizados este ano. Como comenta?
Há muitas correcções a fazer nos níveis das remunerações, porque existem remunerações que têm pouco a ver com os contributos reais que as pessoas dão no exercício das suas funções. Não conheço em detalhe o caso da Parpública, nem os valores em si, mas não tenho dúvidas nenhumas que há muitas situações a corrigir.

No sector público ou no privado?
No privado há casos escandalosos. Estou-me a lembrar de valores de salários conhecidos na banca, nomeadamente no BCP.

É um mau exemplo para o País?
É um péssimo exemplo para toda a gente. Não vejo qualquer justificação para os salários que vieram a público em tempos recentes.

No contexto europeu, Portugal tem vindo a subir no ranking da inovação. É um indicador fiável do que se passa nesta área?
Todos os indicadores podem ter associada alguma possibilidade de falhas, mas medem determinadas variáveis tendo em conta certos pressupostos. E é nesse contexto que devem ser vistos. Em Portugal tem havido um interesse crescente pelas questões da inovação e um conjunto de iniciativas que têm tido resultados positivos na consciencialização da importância da inovação. Não admira, portanto, que haja uma melhoria nesta matéria, assim como numa área que está relacionada, que é a do empreendedorismo.

O que é imprescindível existir para haver inovação?
Inovação é um conceito bem estruturado. Existem definições, ferramentas, metodologias, que permitem que as organizações pensem a inovação de forma a ter impactos sobre a sua competitividade. É preciso seguir as experiências positivas, que mostram que uma organização, para ser inovadora, tem de ter um entendimento comum e partilhado sobre o significado da inovação; tem de ter um núcleo ou uma pessoa responsável pela inovação; deve ter uma carteira de projectos de inovação; e deve ter indicadores que quantifiquem a sua actuação nesta área, entre outros aspectos.

Ainda existe a ideia de que inovar é apenas apresentar novos produtos...
Sabe-se hoje claramente que inovação não é só a introdução de novidade na área dos produtos. Pode ser a introdução de novidade nos processos, nos métodos, no marketing... O conceito de inovação que deve ser implementado é o que foi introduzido pela Comissão Europeia no Livro Verde para a Inovação, que refere que ´inovação é a criação ou a assimilação da novidade e a sua exploração com êxito, nos domínios económico e social´.

Portugal é visto como um País inovador ou tradicional?
Algumas vezes aparece uma tentativa de apresentar Portugal como um País inovador, e essa mensagem passa, mas em muitas outras ocasiões o que passa ainda é uma imagem de País mais tradicional e menos desenvolvido do ponto de vista científico e tecnológico. Nos últimos anos tem havido uma preocupação clara de afirmação como País desenvolvido tecnologicamente. Mas a história anterior era muito de apresentação de Portugal com trajes regionais ou do galo de Barcelos, imagens que não são muito compatíveis com essa afirmação de natureza mais tecnológica. Por outro lado, temos de pensar que os outros países também se afirmam cada vez mais pelos seus conhecimentos de tecnologia.

Dados do Ministério da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior revelam que a despesa portuguesa em I&D, em percentagem do PIB, passou de 0,82% em 1982 (32,6 milhões de euros) para 1,51% em 2009 (1,9 mil milhões de euros). Como analisa esta evolução?
Há um esforço público de aumento da despesa de Investigação & Desenvolvimento. Além disso, tem havido um conjunto de medidas de incentivo às empresas que investem em I&D. Esse incentivo tem duas consequências: pode favorecer maiores investimentos, mas também pode fazer vir ao de cima investimentos que habitualmente já eram feitos, mas não eram classificados pelas empresas como investimentos em I&D. O sistema actual premeia de forma interessante as empresas que declaram ter feito investimentos nessa área; haverá mais empresas a recorrer a ele, e os números melhoram por causa disso, sem prejuízo de, na realidade, poder haver mais investimento, de per si.

Que comentário lhe merece o panorama empresarial na região de Leiria?
Há uma série de empresas muito interessantes e inovadoras na região, com quem a SPI tem tido facilidade em se relacionar. Somos uma consultora focada no apoio à inovação, mas dialogamos sobretudo com empresas que já são inovadoras. Não vamos ensinar às empresas como se inova. Dialogamos com elas contribuindo para uma optimização dos seus processos de inovação e, por essa via, para uma melhoria da sua competitividade.



“Muitos currículos não são nada apelativos para as entidades empregadoras”


O ensino tem preparado as pessoas para os desafios do presente e do futuro?
O ensino tem de ser visto considerando os seus vários níveis. Começando pelos doutoramentos, tenho sérias reservas sobre as opções feitas nos programas que são oferecidos. Vê-se uma vontade de aumentar o número de doutores, mas não sei se há uma boa escolha dos programas. Parece-me que existem opções muito discutíveis e muitas repetições, o que leva os doutorados a perderem flexibilidade de entrada no mercado de trabalho. Em muitos casos não há capacidade de criar condições de aumento da empregabilidade e as pessoas acabam a fazer pós-dou-
toramentos e o Estado vê-se na necessidade de criar mais emprego em laboratórios públicos para absorver essas pessoas.

E a nível universitário?
Houve uma proliferação muito grande de cursos, muitos deles com designações que não permitem entender o que são, quanto mais o seu conteúdo específico. Muitos currículos não são nada apelativos para as entidades empregadoras, porque os cursos têm poucas referências e pouca força, em termos de substância. Há escolas muito boas, mas também um leque muito grande de escolas com deficiências muito grandes. Nos níveis mais abaixo, diria que a escola pública tem sido muito massacrada e que os últimos quatro anos foram perdidos com discussões pouco interessantes, para não dizer pouco dignas, que afastaram os agentes de ensino das prioridades em que deviam concentrar-se.

Medina Carreira, ex-ministro das Finanças, disse recentemente que a educação em Portugal “é uma miséria” e que as escolas produzem “analfabetos”. Partilha esta visão?

Não subscreveria algo assim. Temos em Portugal, em todos os domínios, coisas boas ou muito boas. Não se pode generalizar. Haverá certamente programas de doutoramento muito interessantes, escolas superiores e cursos que preparam os alunos bem, escolas secundárias a funcionar bem... Mas uma coisa é isto e outra é o que devia estar ao nosso alcance. O que fazemos não chega, é preciso fazer mais.


Que balanço faz do processo de Bolonha?
Conceptualmente, Bolonha é muito interessante. Tínhamos na Europa um sistema de ensino superior muito difícil de apresentar a qualquer não europeu. Os programas eram muito diferentes entre países europeus. Faz sentido, é uma evolução positiva, ter criado os vários ciclos. Mas Bolonha é mais do que isso. Encerra virtualidades muito interessantes, que passariam pela possibilidade de o aluno mudar de escola e mudar a ênfase do seu programa de formação com maior facilidade. Não sei é se isso está a acontecer. O que vejo na faculdade [de engenharia da Universidade do Porto] é que os alunos fazem os três primeiros anos e depois continuam ali a fazer o segundo ciclo na mesma área.

O empreendedorismo ensina-se ou é inato?

As duas coisas. Hoje pode-se sensibilizar e treinar as pessoas em temáticas que têm a ver com o empreendedorismo e isso fomenta iniciativas empreendedoras. Se falarmos em planos de negócios, se dermos exemplos de empresas criadas por pessoas com formações básicas semelhantes, se divulgarmos o que são incubadoras de empresas e programas de apoio à criação de novos negócios, isso pode mostrar às pessoas que não é complicado, que criar uma empresa não é uma ideia de desprezar.



“É muito importante criar parcerias com a China”

Conhece bem o mercado chinês, onde a SPI tem um escritório. É um país onde também se faz inovação...
Fortíssima. Estive na China recentemente, depois de um ano sem lá ir, e vim impressionado. A China tem uma capacidade de decisão forte, muitos meios financeiros, e as pessoas trabalham a um ritmo a que nós não estamos habituados.

A China deve ser vista como uma ameaça ou como uma oportunidade?
É muito importante criar relações e parcerias com a China e perceber as realidades chinesas, porque elas vão influenciar, cada vez mais, as realidades de todos os países de uma forma significativa. As influências são aos mais variados níveis. Em Cabo Verde, por exemplo, a presença chinesa é muito significativa. Há lojas chinesas em todo o lado, há empréstimos daquele país a Cabo Verde, entre outros aspectos. E na própria China há uma capacidade de realização, há um desenvolvimento fantástico na área da Ciência e Tecnologia. Tem hoje um sistema de inovação com ingredientes iguais aos melhores existentes na Europa e nos Estados Unidos. Tem universidades a fazer, além do ensino e investigação, transferência de tecnologia, criação de empresas e sua cotação na bolsa, tem sociedades de capital de risco... Tudo aquilo que se considera relevante num sistema de inovação existe na China, copiando as melhores práticas dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, e melhorando-as tendo em conta a experiência local.

E em Portugal, esse sistema existe devidamente estruturado? Funciona bem?

Ainda há muitas arestas a limar. Portugal tem feito progressos nessa área, como noutras. Mas é preciso ver que os outros países também fazem progressos, mais significativos. Não podemos de modo nenhum ficar sossegados. Continuamos a ter lacunas muito significativas.





Lacunas nos programas de apoio

Amílcar Lopes, empresário, Leiria
Qual o peso/relação que efectivamente tem havido de projectos inovadores dentro dos diversos projectos em que a SPI já participou?
A SPI participa predominantemente em projectos que têm uma grande componente de inovação. De facto, o elemento que pode ser diferenciador na SPI, em relação a outras consultoras, é a sua maior apetência para os projectos em que existe uma componente forte de ciência e tecnologia/inovação. Não sei quantificar a percentagem, mas a maioria das novas intervenções é em projectos com essa característica.

Rui Tocha, director-geral do Centimfe
Em seu entender, que políticas públicas deveriam ser lançadas para o suporte aos elementos diferenciadores da indústria de moldes nacional, que pelo seu efeito alavancador reforçam o valor da imagem de Portugal?
Julgo que existe hoje na legislação portuguesa um conjunto muito diversificado de apoios públicos, cobrindo grande parte das necessidades dos diferentes sectores, incluindo o dos moldes. No entanto, existem enormes lacunas na operacionalização dos mesmos, em termos de condições de acesso, ritmo de implementação e regularidade da sua disponibilidade. n


O vício do ginásio

Todos os dias, às sete da manhã, Augusto Medina cumpre um ritual: vai ao ginásio. Descobriu este prazer, que se tornou quase um vício, pelo que o repete diariamente “sem sacrifício nenhum”, até porque começa melhor o dia. Ao fim-de-semana joga ténis. Licenciado em Engenharia Química pela Faculdade de Engenharia do Porto e doutorado na mesma área pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, Augusto Medina é presidente da Sociedade Portuguesa de Inovação, cuja criação promoveu em finais de 1996. É também Professor Catedrático da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Entre outras actividades, tem colaborado com a Comissão Europeia, sendo actualmente membro do Sounding Board of smaller actors on participation in the Seventh Framework Programme for Research. Recebeu vários louvores ao longo da sua carreira: Chevalier de L´Ordre National du Mérite (França, 1995); United Biscuits Industrial Academic Achievement Award, 1997; e Doutor Honoris Causa, título atribuído em 1996 pela Moscow State Academy of Applied Biotechnology.


Texto: Raquel de Sousa Silva

Fotos: Ricardo Graça


4-02-2010

VoltarImprimir 
A sua opinião
O Tempo na região
14ºC
Nascer do Sol 7:12
Por do Sol 19:53
Próximos Dias
Agenda Cultural