A espuma suja que, nas últimas semanas, tem manchado as praias da região, afectando sobretudo o Pedrógão, Vieira e S. Pedro de Moel, já começa a produzir efeitos no turismo. Alguns empresários do sector dizem que a situação está a provocar quebras no negócio, mas temem que o pior ainda esteja para vir, receando que muitos dos veraneantes que este ano escolheram a região para fazer férias, não voltem, tal a má imagem que levam na bagagem. Mas este está longe de ser o único problema a afectar as praias do distrito. A erosão costeira tem vindo a agravar-se, com a instabilidade das arribas a levar já à interdição de algumas zonas. E as consequências da construção de esporões a Norte do Osso da Baleia (Pombal) são já bastante visíveis, com a redução dos areais a fazer-se sentir sobretudo no Pedrógão e na Vieira, situação que tenderá a agravar-se nos próximos anos, na sequência do prolongamento do molhe Norte do Mondego, em fase final de construção. A juntar a este rol de problemas, há a pressão urbanística que continua a exercer-se em cima de arribas e o arrastar do processo de despoluição do rio Lis, que desagua na praia de Vieira e que continua a registar índices de contaminação que, embora dentro dos parâmetros legais, não deixam de ser preocupantes. “Não temos cuidado bem do nosso litoral”, reconhece Domingos Patacho, presidente do núcleo de Ourém da Quercus, para quem o ambiente é a principal vítima desse descuido, embora esteja longe de ser a única, uma vez que também o turismo sai prejudicado. “As pessoas gostam de praias que não estejam poluídas, com areais limpos e sem casas em cima das arribas”, frisa o ambientalista. É precisamente por isso que Miguel Castela, proprietário do Bar Holandês, no Pedrógão, não se conforma com a “inércia” das entidades competentes, em esclarecer a origem e resolver de uma vez por todas o problema da sujidade da água do mar. “As pessoas não se convencem que são algas. Tenho ouvido vários turistas a dizer que não voltam ao Pedrógão, porque não estão para passar uma semana com o mar naquele estado”, conta o empresário. Carlos Santos, de Miranda do Corvo, é uma dessas pessoas. Nos últimos quatro anos, este reformado da Marinha escolheu o Pedrógão para passar férias, mas tenciona mudar de destino. “Não me lembro de alguma vez ter visto a água limpa. Dizem que não há problemas para a saúde, mas não consigo banhar-me com o mar assim”, refere o veraneante, que pede uma maior intervenção das associações ambientalistas, que, no seu entender, têm andado “demasiado silenciosas” em relação a este assunto. “Se fazem barulho devido a tanta coisa, deviam também agarrar esta causa”, desafia.
“Levar com a porcaria dos outros” Elogiando a Câmara da Marinha Grande pela preocupação “constante” com a limpeza dos areais desde que a espuma suja começou a dar à costa das praias da região, Luís Vasco Pedroso, administrador do complexo de piscinas de S. Pedro de Moel, Promoel, defende uma maior acção da Administração Central. “É preciso saber o que andam a fazer para tentar resolver o problema, se é que estão a fazer alguma coisa. No turismo o que parece é. Se a água vem suja e com mau cheiro, não é fácil convencer as pessoas que são apenas algas”. O empresário diz que o negócio está a sofrer “quebras acentuadas” e a culpa, diz, “não é só da crise”. Opinião semelhante tem Natália Loureiro, proprietária de um concessionário em S. Pedro de Moel, que sabe de pessoas que tinham alojamento reservado e que desistiram devido ao problema da água. “Outras telefonavam a perguntar como estava o mar e já não vinham. Houve uma quebra muito grande”, alega a comerciante, que lamenta que S. Pedro de Moel tenha de “levar com a porcaria dos outros”. David Catarino, presidente do Turismo de Leiria-Fátima, defende uma intervenção ao “nível intermunicipal” para encarar os problemas que afectam as praias da região, considerando prioritário estudar a origem da sujidade do mar que se tem verificado e que está a prejudicar a “atractividade” das zonas balneares, uma das jóias da coroa do turismo da região. O dirigente pede ainda uma “acção mais activa do Ministério do Ambiente” na resolução dos problemas, criticando a tutela, por exemplo, pela forma como está a lidar com o problema das arribas. “Em vez de executar o plano de intervenção, retira os passadiços”. n
Foz do Arelho desespera por intervenção na lagoa Na última Primavera chegou a temer-se o pior na Foz do Arelho. No Inverno, a aberta (canal que liga a Lagoa de Óbidos ao mar) deslocou-se perigosamente para Norte, ameaçando os bares existentes na praia e a avenida e engolindo parte substancial do areal. No entanto, a acção do Inag (Instituto da Água), com o desvio da aberta para Sul, permitiu repor o areal ainda antes do início da época balnear. Mas o perigo vai continuar a pairar sobre a Foz do Arelho enquanto não for feita a intervenção de fundo, com a desassoreamento da lagoa e a construção de um dique para fixar a aberta. O início dos trabalhos está prometido para o final do ano, mas o presidente da Câmara de Caldas da Rainha, Fernando Costa, ainda não está totalmente convencido que o problema seja resolvido desta vez. A diversidade de opiniões técnicas em relação às soluções a adoptar tem sido, no entender de Fernando Costa, um dos motivos que tem contribuindo para o arrastar do problema, a par da “falta de vontade política e de financiamento”. “A praia tem conseguido manter-se, sem grandes prejuízos para o turismo. Mas, se não actuarmos rapidamente, poderá chegar o Verão em que não teremos areal”, alerta. n
Estudo feito por investigadores da Universidade de Coimbra Mar avançou cerca de dez metros nos últimos meses a Sul do Pedrógão Ainda não se encontra concluído, mas o prolongamento do molhe Norte do Mondego pode já estar a ter consequências nas praias da região, nomeadamente no Pedrógão e na Vieira. Um grupo de investigadores do Instituto do Mar da Universidade de Coimbra passou os últimos meses a monitorizar a linha de costa entre o cabo Mondego e a Nazaré e os dados já recolhidos são preocupantes. Num dos pontos de medição, localizado a Sul do afloramento calcário do Pedrógão – em frente à ETAR – revela que, em pouco mais de seis meses, houve um avanço do mar de cerca de dez metros. Segundo José Nunes André, geógrafo que integra aquele grupo de investigadores, “o recuo erosivo chegou a ser de três metros em apenas 100 horas”. Na praia da Vieira, onde está localizado outro ponto de monitorização, foi registada “uma berma [degrau] erosiva de cerca de três metros e não houve recuo porque o início do perfil coincide com o paredão”. José Nunes André diz que “não se pode deduzir com rigor que o recuo erosivo seja já uma consequência do início do prolongamento do molhe Norte, pois pode tratar-se de um Inverno em que houve uma predominância da ondulação de Sudoeste ou uma associação das duas situações”. Mas o geógrafo não tem dúvidas que esta obra de engenharia vai agravar a erosão das praias da região. “Quando se constrói uma infra-estrutura destas, há um aumento das praias a Norte e uma diminuição da quantidade de areia a Sul”, explica. Durante algum tempo o Pedrógão conseguiu resistir a esse fenómeno, muito devido ao afloramento calcário existente a Sul da praia, que funciona como “um esporão natural”. “No Inverno as rochas ficavam à vista, mas na Primavera eram totalmente cobertas. Ultimamente a areia já não é suficiente para cobrir a rocha toda”, constata aquele geógrafo. “O molhe do Mondego [cuja primeira fase foi construída na década de 60] veio alterar esta zona da costa. Antes, tínhamos um areal quase a perder de vista e, durante o Verão, não havia pedras a descoberto”, conta Maria Justino Vareiro, 72 anos, que faz praia no Pedrógão quase desde que nasceu. Por isso, diz-se “assustada” com o que está a passar na sua estância balnear de eleição e preocupada com a falta de atenção das entidades responsáveis. No ano passado, quando o JORNAL DE LEIRIA abordou o problema das consequências do prolongamento do molhe Norte, o Turismo de Leiria-Fátima enviou um ofício à Comunidade Intermunicipal do Pinhal de Litoral a propor que fosse pedido um parecer técnico que avaliasse os eventuais impactos da obra na região. A ideia até colheu apoio de algumas autarquias, mas até hoje não passou de uma intenção. Mas o problema da diminuição de areia nas praias da região não pode ser atribuído apenas às obras de engenharia - esporões e molhes. Domingos Patacho, presidente do núcleo de Ourém da Quercus, chama a atenção para os efeitos da construção de barragens e açudes nos rios, que fazem a retenção de areias, impedido-as de chegar, de forma natural, ao mar. “Entre 10% a 20% da erosão da costa deve-se à subida do nível do mar. Os restantes 80% são provocados por défice sedimentar, devido à acção das obras de engenharia e às barragens”, afirma José Nunes André. O geógrafo sublinha que o rio Douro depositava “1.2 milhões de metros cúbicos de areia na costa, valor que, na década de 90, passou para 200 mil metros cúbicos”. n
Construção em cima de arribas agrava erosão Para o geógrafo José Nunes André, o recuo erosivo da costa não se resolve com obras de engenharia. O especialista reconhece que não é um combate fácil, mas defende que parte da solução passa por travar a construção em zonas de risco. Esse é também o entendimento do presidente do núcleo de Ourém da Quercus. Domingos Patacho considera “vergonhoso” que se continue a “sobrecarregar arribas já frágeis com novos empreendimentos”. E dá o exemplo da Pedra do Ouro, em Alcobaça, onde está em processo de licenciamento uma zona de moradias em banda, com cerca de 30 fogos a aproximadamente 50 metros de uma falésia, num terreno que está parcialmente classificado como zona urbana. “Um dia destes, os contribuintes serão chamados a pagar para suster aquela falésia”, adverte o ambientalista, que diz perceber que as câmaras gostem de aumentar as suas receitas, mas defende que tal “não pode ser feito a qualquer custo”. n
Planos de Ordenamento da Orla Costeira só avançaram em casos mais críticos Arribas continuam à espera de intervenção
Os avisos de risco de derrocada proliferam ao longo da costa do distrito de Leiria. No início da época balnear, a Administração de Região Hidrográfica do Tejo (ARHT) reforçou a sinalização junto aos locais perigosos, mas algumas placas foram vandalizadas. Os trabalhos de estabilização nas arribas continuam adiados. Só os casos mais graves foram contemplados. Estão sinalizadas cerca de 20 praias no distrito de Leiria. Os concelhos de Alcobaça, Marinha Grande, Nazaré, Óbidos e Peniche são os que apresentam mais riscos. Na praia da Almagreira, Peniche, o desabamento de uma falésia matou duas pessoas, em Agosto de 2005. As obras para conter a erosão costeira estão inseridas no Plano de Acção para o Litoral 2007-2013, mas no distrito só o concelho de Peniche foi alvo de intervenção. Segundo o jornal Público, das 84 acções prioritárias, apenas seis já foram executadas e outras 36 estão em execução. Fonte do gabinete da ARHT afirma que, para já, a informação técnica disponível “não permite afirmar que existam casas em situação de risco iminente” no distrito de Leiria. No entanto, “dada a permanente evolução das arribas”, a área é alvo de “acompanhamento sistemático pelas entidades competentes”. As intervenções nas arribas são da responsabilidade do Instituto da Água, mas a ARH do Tejo lançou o projecto de Sistema de Monitorização no Litoral, que vai permitir “montar um sistema de evolução e dinâmica costeira, dando resposta às necessidades inerentes à implementação dos Planos de Ordenamento da Orla Costeira”. Desta forma será possível “avaliar atempadamente a existência de situações de risco” e adoptar medidas de segurança.
Praia da Concha coberta de pedras “Se não fizerem nada vai tudo abaixo.” A frase é de Abílio Lourenço, morador em S. Pedro de Moel há 50 anos. A sua casa fica junto aos passadiços de madeira, interditados recentemente por causa do perigo de queda de arribas. Ao longo dos anos assistiu à entrada do mar pela vila. “Tem vindo a piorar de ano para ano. Já proibiram a circulação do trânsito [estrada que liga o hotel à Casa Museu Afonso Lopes Vieira], mas não fazem mais nada”, conta ainda o morador. Com “algum receio”, agravado pelas notícias de derrocadas, Abílio Lourenço revela que as casas têm cedido à erosão e “as rachas estão sempre a aparecer”. Elisabete Santos aponta o dedo “à chuva e às tempestades” como as principais culpadas da queda de blocos das arribas. “As falésias são como barro. Com as chuvas vão caindo todos os anos”, afirma a moradora. Aos 82 anos, Elisabete Santos mostra o local onde já viveu e que desapareceu com a erosão. “O local onde vivia é um buraco, que, segundo acredita, daqui a umas décadas irá chegar à sua casa e habitações vizinhas.” Para a moradora, o futuro está traçado: “a chuva e o mar vão escavando e as pedras vão caindo”, aumentando a erosão. Elisabete Santos revela que várias praias têm vindo a desaparecer em S. Pedro de Moel. Locais onde antes a areia era abundante e hoje não existe ou ficou submersa pelas pedras que vão caindo insistentemente das arribas. Um desses exemplos é a praia da Concha, que este ano viu mais de metade do areal transformado em grandes pedregulhos. Américo Rosa há dezenas de anos que pedala entre a Marinha Grande e S. Pedro de Moel e tem acompanhado a erosão nas praias do concelho. “Este ano a praia da Concha é só pedra. O mar tem vindo a avançar e consegue fazer coisas que nem máquinas seriam capazes”. Segundo Américo Rosa, “as falésias são uma espécie de barro que todos os anos parece que apodrecem e caem”, mas “vejo as pessoas que continuam a não respeitar a sinalização”. O marinhense conta que numa das baías ao lado existia uma rocha com uma saliência no meio onde costumava apanhar percebes. “O mar partiu a rocha e já não é possível.” n
Fábricas da Leirosa estarão na origem da contaminação das praias Quercus quer regras mais apertadas para descargas de efluentes no mar
Domingos Patacho, presidente do núcleo de Ourém da Quercus, abordou a Soporcel, fábrica de produção de papel, e a Celbi, fábrica de pasta de eucalipto, ambas localizadas na Leirosa, Figueira da Foz, para as confrontar com a possibilidade de serem responsáveis pelas descargas de efluentes que terão contaminado o mar e o areal entre as praias de S. Pedro de Moel e a zona da Leirosa. A suspeita foi comunicada também à Inspecção-Geral do Ambiente. O ambientalista refere que fez o primeiro contacto com a Soporcel, que garantiu não ter qualquer problema ao nível da produção de papel e assegurou estar a respeitar os parâmetros de licença de descargas de efluentes no mar. Na sequência disso, Domingos Patacho remeteu um email para a Celbi a questionar se existiu algum “problema de descontinuidade ou mau funcionamento dos sistemas de tratamento de efluentes da fábrica”, por se ter apercebido de uma intervenção no colector que sai do perímetro industrial da Celbi, no dia 6 de Julho. À hora de fecho da edição, Domingos Patacho recebera apenas um contacto informal da empresa, a garantir que não tinha havido qualquer intervenção em nenhum colector da Celbi nem qualquer outro tipo de problema que pudesse justificar a contaminação das praias. A associação ambientalista refere que foi alertada para a existência de “espuma verde acastanhada a dar à costa”, problema que foi detectado a partir do dia 2, prolongando-se pelos dias seguintes, alegadamente devido a problemas de descarga dos efluentes de alguma das fábricas da Leirosa.
Parâmetros mais “apertados” Caso se confirme que as duas fábricas cumprem os limites máximos de descargas de efluentes permitidos por lei, Domingos Patacho defende que as autoridades deviam tornar os parâmetros mais “apertados” quando emitem as licenças. “O tratamento deve ser melhor para retirar mais matéria orgânica dos efluentes.” A explicação avançada pela Administração Regional Hidrográfica do Centro e pelo delegado de saúde para a poluição das praias tem a ver com a concentração de microalgas, que garantem não ser prejudiciais para a saúde pública. Domingos Patacho esteve no local na quinta-feira passada e confirmou que a contaminação é mesmo provocada por esses microorganismos. Contudo, acredita que uma concentração tão elevada se prende com a existência de matéria orgânica no mar, que provoca a reprodução das bactérias e algas, que, quando morrem, entram em putrefacção e dão origem a espuma. Nuno Carvalho, presidente da Oikos, também foi ao local no mesmo dia e diz que, à vista desarmada, não detectou resíduos industriais. No entanto, admite que possa ter existido um problema em algum equipamento de uma das fábricas da Leirosa, que tenha conduzido a uma descarga. O ambientalista aproveitou para recolher amostras de microalgas e de espuma, em vários locais da costa, que admite mandar analisar. “Vamos aguardar pelos resultados das entidades oficiais primeiro.” Álvaro Pereira, presidente da Câmara da Marinha Grande, esteve, na quinta-feira passada, na Administração Regional Hidrográfica do Centro, onde conseguiu o compromisso de que, assim que houver suspeitas de uma descarga, serão recolhidas amostras de imediato para análise. “Quero que analisem também os sedimentos no areal”, explica o autarca, que sublinha ainda a importância de a colheita ser feita nas primeiras 24 horas para que os resultados sejam o mais fiáveis possível.n
Textos: Maria Anabela Silva, Alexandra Barata e Elisabete Cruz
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