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Sócrates

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Edição 1365
Distrito de Leiria
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Água será o petróleo do futuro

Mais de 30% da população mundial vive hoje com escassez de água, uma realidade que tende a agravar-se, ameaçando a saúde pública e a segurança do planeta.

Mais de 30% da população mundial vive hoje com problemas de escassez de água, mas as Nações Unidas prevêem que, dentro de dez anos, esse valor possa chegar aos 35%. Este organismo estima ainda que a saúde de cerca de 1.2 biliões de pessoas esteja a ser afectada pela falta da qualidade da água, situação que se tende a agravar face aos níveis de poluição, cada vez maiores, de rios e lagos. Estes números levam alguns especialistas a antever que as guerras do futuro estarão relacionadas com a partilha de bacias hidrográficas, um cenário de conflito ao qual nem a Europa escapará.
“A Europa corre sérios riscos de guerras por causa da água”, afirma o meteorologista Anthímio de Azevedo, que aponta a situação do Dafur e da Costa do Marfim como dois exemplos de conflitos motivados também pela falta de água. “As populações do Interior, perante a escassez deste bem, vêem-se obrigadas a fugir para o Litoral, onde as grandes concentrações populacionais acabam por provocar conflitos”, concretiza o especialista, que não tem dúvidas de que o fornecimento de água às populações será um dos maiores desafios da humanidade.

Combater os desperdícios
A sua escassez torna a água um bem cada vez mais valioso, de tal forma que, há cerca de dois anos, durante o Fórum Económico Mundial, o presidente da DOW, uma das maiores empresas químicas mundiais, dizia que “a água é o petróleo deste século”. José Monteiro, especialista em Gestão de Recursos Hídricos e professor na Universidade do Algarve, partilha dessa visão, considerando que, a este nível, “Portugal está longe de ser um País desfavorecido, tendo uma enorme riqueza hidrográfica”.
Mas os dividendos que daí poderão advir dependem muito da gestão que venha a ser feita desse recurso, em “articulação com todos os instrumentos de ordenamento do território”, adverte o especialista, que chama a atenção para a necessidade de reduzir os desperdícios, nomeadamente na agricultura, que, de acordo com o Plano Nacional da Água, absorve cerca de 80% da água consumida em Portugal.
O docente diz que, no geral, falta àquele sector capacidade de incorporar tecnologias que tornem a rega mais eficaz, o que justifica os níveis de desperdícios na ordem dos 30%. “Se a agricultura conseguisse aplicar toda a tecnologia disponível, a gestão da nossa água avançaria 20 ou 30 anos”, afirma José Monteiro, que dá o exemplo do golfe como uma actividade que faz uma gestão “muito eficiente da água”.
Apesar dessa preocupação, o golfe é constantemente apontado como um grande sorvedouro de água, uma vez que um campo com 18 buracos gasta tanto como 60  mil pessoas. No entanto, um estudo da Universidade do Algarve revela que o sector consome apenas 0.3% do total de água utilizada no País, sendo que, no Algarve, esse valor sobe para 3%. “Se os campos de golfe deixassem de regar pouparíamos 0.3% de água em Portugal. Que problemas resolveríamos?”, questiona uma fonte da Direcção do Conselho Nacional da Indústria do Golfe.

Um bem “demasiado barato”
Carla Graça, engenheira do Ambiente e membro da Direcção da Quercus, chama a atenção para a necessidade de combater os desperdícios das redes públicas, que rondarão os 30%, e de inverter as políticas dos municípios, que ainda “teimam em regar jardins com água potável”.
Anthímio de Azevedo aponta o caso da Namíbia como o exemplo de um país que, devido à escassez de água, “recupera, filtra e reutiliza toda a água de todos os usos”. Por seu lado, a Suécia, uma nação “relativamente rica”, tem sanitários públicos que permitem o tratamento e aproveitamento dos efluentes para rega e como adubos. “Em Portugal, um País pobre, a tendência é para abrir a torneira e gastar à larga”, lamenta.
Para combater essa situação, Carla Graça defende “a moralização dos consumos”, com maiores penalizações para os exageros. “Pagamos a água demasiado barata. Esquecemo-nos que este é um bem escasso, não por falta de água, mas por escassez de água potável, afirma a ambientalista.
Carla Graça sugere ainda a criação de incentivos fiscais para que as novas construções adoptem soluções que permitam um uso mais eficiente da água, como canalizações com tubagens duplas, para aproveitar a água dos banhos e das lavagens para rega.

Dessalinização, uma solução com custos elevados
A construção de centrais de dessalinização, para aproveitamento da água do mar, é uma solução que está a ser adoptada por muitos países, nomeadamente Espanha, Reino Unido, Arábia Saudita e EUA, para combater a escassez de água. No entanto, esta é uma opção com elevados custos económicos e ambientais, por causa dos gastos energéticos que lhe estão associados. Carla Graça, membro da Direcção da Quercus, diz que a dessalinização “é uma possibilidade”, mas defende que, “antes de procurar alternativas, temos de conter os excessos”. Esse é também o entendimento de José Monteiro, docente na Universidade do Algarve, para quem a utilização de recursos hídricos não convencionais - aproveitamento da água do mar e reutilização de águas residuais tratadas -, só deverá avançar quando conseguirmos “uma belíssima articulação entre as origens convencionais de água e o ordenamento do território”, que permita melhorias na gestão deste bem e reduções significativas dos desperdícios.

Aquífero do Maciço Calcário Estremenho subaproveitado
Segunda maior reserva de água subterrânea do País, o Maciço Calcário Estremenho está “subaproveitado”. Quem o diz é José Crispim, geólogo que tem dedicado parte do seu trabalho de investigação àquela zona, que lamenta que os municípios abrangidos pelo maciço sejam “riquíssimos em água”, mas que prefiram ´importá-la´, recorrendo a outro tipo de captações, com o argumento de que “é mais fácil e mais barato” do que aproveitar aquele aquífero.
Cláudio de Jesus, engenheiro do Ambiente, chama, no entanto, a atenção para a vulnerabilidade dos maciços aos fenómenos de poluição, recordando o que aconteceu em Leiria, em 2003, quando “a incúria de alguns poluidores pôs em causa a saúde de 50.000 habitantes”. Por isso, o técnico defende que, para fazer aproveitamento de água a partir dessa grande reserva, “seria necessário, em primeiro lugar, erradicar todas as fontes de poluição existentes ou potencialmente existentes na sua área de influência, o que não é fácil conseguir pois muitas delas nem sequer estão devidamente identificadas”.
Apesar de reconhecer essa vulnerabilidade, José António Crispim frisa que, “em muitos casos, nos maciços a contaminação desaparece em algumas horas, porque há uma grande capacidade de regeneração, enquanto noutro tipo de aquíferos os impactos prolongam--se e podem mesmo inviabilizar a continuação da exploração da captação”.
Outro dos problemas associados ao aproveitamento dos aquíferos cársicos é o armazenamento, porque, devido à morfologia dos solos, a água perde-se com facilidade. José Crispim sublinha, contudo,  que “há formas de contornar” a questão, através da construção de represas à saída das nascentes, como acontece no Almonda, ou da introdução de bombas de extracção, que permitam “baixar o nível das galerias e conseguir aumentar o caudal de água”.


Cláudio de Jesus, engenheiro do Ambiente e administrador da Águas de Portugal
“Cidadãos ainda não perceberam o verdadeiro valor da água”


Apesar das pessoas já começarem a estar mais sensíveis para a problemática da escassez de água, continuam a ser feitos grandes desperdícios. Por que é que isso acontece?
Os grandes desperdícios de água ocorrem fundalmente porque os cidadãos ainda não perceberam qual o seu verdadeiro valor. Embora nos últimos anos se tenham multiplicado as campanhas de sensibilização, continuamos a assistir a atitudes no quotidiano que fomentam o desperdício. A água, como bem indispensável à vida humana, deve ser usada com racionalidade, pois custa cada vez mais caro a quem tem de gerir o ciclo da sua captação, tratamento e distribuição. Esta cultura do desperdício só tenderá a acabar quando os cidadãos começarem a pagar o real custo do serviço que lhes é prestado. Cada metro cúbico de água potável colocada na torneira de nossas casas, custa o mesmo que uma garrafa de água de 0,5 litros comprada num estabelecimento comercial.

As rupturas nas redes públicas de água são responsáveis por perdas significativas. Qual a percentagem actual de perdas das redes pública e o que pode ser feito para combater o problema?
Muito tem sido feito pelas entidades gestoras dos serviços de água para diminuir as perdas. Até há poucos anos, a percentagem de perdas na rede pública de abastecimento era muitas vezes superior a 50%. Hoje, fruto de muitos investimentos na reabilitação de colectores e na construção de novos sistemas de distribuição, as perdas diminuíram significativamente para valores entre 20 e 30%.

Face às previsões do agravamento da escassez de água, é expectável que este recurso venha a ser uma fonte de riqueza para os países que, no futuro, consigam ter água? A água poderá ser "o petróleo" do futuro?

Em alguns países do planeta a água é já o bem mais precioso que existe. Na África Subsaariana o custo de um litro de água para as populações que vivem mais isoladas de grandes aglomerados populacionais tem um preço inimaginável. Reflexo da importância que este recurso tem cada vez mais à escala global é o facto de o último Fórum Mundial da Água, realizado em Istambul em 2009, ter contado com a participação de 25.000 delegados de todo o mundo.


Alguns números do consumo


Um estudo da Aquapor revela que cada português gasta, em média, 109 litros de água por dia

Portugal ocupa o 4º lugar entre os países da União Europeia com maiores consumos de água, tendo em conta dados do Eurostat

Dados do INAG (Instituto Nacional da Água) revelam que um terço da água captada é desperdiçada em Portugal

Segundo o Plano Nacional da Água, a agricultura é o maior utilizador de água em Portugal, com 87% do total, contra 8% do total do abastecimento às populações e 5% do total da indústria

Cada descarga de autoclismo gasta cerca de 10 litros de água

Um duche de 5 minutos gasta entre 25 e 100 litros

Uma torneira aberta no lavatório pode gastar 9 litros de água por minuto)

Apenas 2.5% do volume de água da Terra é água doce, sendo que dessa percentagem apenas 1% existe nos lagos, rios, zonas húmidas e atmosfera; o restante está ´aprisionado´ nos glaciares

Dicas para poupar água

Em casa

mantenha a canalização doméstica em bom estado
feche sempre bem as torneiras
utilize torneiras de regulação do fluxo de água ou instale dispositivos de redução de caudal.
instale autoclismos com dispositivo de dupla descarga (poderá também colocar  garrafas de água no interior do reservatório para reduzir a quantidade de água gasta em cada descarga)
tome duches rápidos e feche a torneira enquanto se estiver a ensaboar
utilize um balde para recolher a água do duche enquanto espera que a água aqueça
feche a torneira quando está a lavar os dentes ou a fazer a barba
utilize a máquina de lavar roupa e loiça com carga completa
se lavar a loiça à mão, encha o lava-loiça com a água necessária.



No exterior:
lave o carro com balde e esponja, evitando o uso da mangueira.
aproveite a água da chuva, colocando um reservatório ou uma cisterna na rua (ode utilizar essa água para lavar o pavimento ou o carro, no autoclismo ou para regar o jardim).
regue o jardim de manhã cedo ou ao início da noite, quando a evaporação é menor
cultive plantas típicas da sua região, porque estão melhor adaptadas às condições climáticas
reutilize água para regar o jardim (pode usar a água de lavar fruta ou legumes)
utilize o regador e evite o uso da mangueira sempre que possível
cubra a terra do jardim ou dos vasos com casca de pinheiro ou outros materiais (conserva a humidade da terra)


Fonte: www.quercus.pt


4-02-2010

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